Perrengue na Pedra Aguda!

Estava eu com menos de um ano de experiência em escalada em rocha quando recebi o convite para fazer minha primeira escalada de uma via clássica, no caso a normal da Aguda, na cidade Cearense de Aracoiaba. O convite me foi feito pelo amigo Claudney Neves, residente no Rio de Janeiro, e que viria até aqui com um casal de amigos, Claudio e Mônica. Eu seria seu parceiro.
Combinamos de eu pegá-los no aeroporto às 6 da matina do dia 17 de Maio, e de lá pegarmos a estrada até Aracoiaba. Enquanto dirigia até lá ia fazendo minhas contas do tempo que iriamos levar: 2 horas de carro até Aracoiaba, meia hora de trilha, chegar no cume por volta do meio dia, e umas 3 horas da tarde a gente já ia tá embaixo. Ia ser moleza! Nem headlamp eu levei!
Como eu havia calculado, chegamos em Aracoiaba por volta das 8 horas da manhã. Tudo indo dentro dos conformes. Mas na trilha, já vi que as coisas não iam ser bem como eu imaginava. Demoramos incríveis duas horas na trilha, que de trilha realmente não tinha nada, e finalmente chegamos na base da via. Mas até ai tudo bem, apenas um pequeno contratempo. A volta ia ser tranquila, Claudney tinha marcado todo o trajeto no GPS.
Começamos a escalar por volta das 10:30h. O Claudney e o Claudio foram guiando, enquanto eu e Mônica iriamos de segundo. Logo no começo da escalada vi que não tinhamos escolhido a melhor época pra chegar no cume. O mato tava alto, e tinha imensas moitas da planta mais espinhenta que eu já vi: Macambira! E não é que o Claudney inventa de passar justo no meio de uma?
- Como tu passou por isso aqui, Claudney? - É tranquilo! Só mete os pés ai. Usa a planta como agarra! - Tu é doido, é?
Contornei a moita e segui subindo. A pedra fritando com o sol do Ceará de quase meio dia. Ai chegamos num ponto delicado. Justo no meio da via, água escorrendo com vontade. E justo num lance de travessia. Foi o jeito encarar o aguaceiro. Claudney foi com toda a calma, olhando bem onde pisava, pra não cair na moita de Macambira logo abaixo. Finalmente ele conseguiu, ai foi minha vez. Negócio liso pra caramba, mas mesmo assim deu pra passar tranquilo. Tocamos pra cima!
Estavamos perto do cume, mas já era quase 3 da tarde. Claudio tava passando mal com o calor, e pra completar, tinhamos perdido o croqui da via e estavamos sem saber onde estava a próxima chapa. Solução? Ligar pra alguem que conhecia a via e perguntar o caminho. Claudney ligou pro amigo Pepê que indicou a direção e seguimos em frente, mas dessa vez trocando a estrategia. Claundey iria na frente, e eu em seguida levando a corda do Claudio, que tava sem condições de guiar.
Depois de quase 5 horas de escalada, chegamos no cume da Aguda. Assinei o livro de cume, e me emocionei com o momento lá em cima. A conquista foi dedicada a escaladora Chang Wei, que havia falecido a pouco tempo na Ana Chata. Ela e Claudio haviam tentado chegar ao cume da Aguda uma vez, mas sem sucesso.
Começamos a descida e eu lembrando que não tinha trazido headlamp! Começamos a rappelar, e o sol ia sumindo. Em determinado momento, eu teria que rappelar por dentro de uma maldita moita de macambira. Tive a brilhante ideia de alongar um pouco mais o passo e tocar a pedra mais embaixo. Seria brilhante se eu não tivesse sentido uma caimbra dos diabos e caído sentado na moita.
Continuamos, e mais embaixo, Claudio passou direto da parada e teve que voltar. Mais tempo perdido. No último rappel eu fiquei pra descer depois de todo mundo. Enquanto tava lá em cima sozinho, ficava maldizendo o dia que aceitei me meter naquilo. Chegando na base, ainda tivemos que fazer mais um rappel de uma arvore pra chegar em terra firme. Agora só faltava a trilha, e já era 8 horas da noite.
Naquela altura do campeonato a água já tinha acabado, e eu tava doido pra chegar em casa. Ai lá vai mais um perrengue. Cadê o Claudney achar o caminho com o GPS? Foram mais duas horas perdidos no mato, de noite, sem água! Eu tava a ponto de sentar no chão e desistir. Mas enfim, achamos o caminho e chegamos no carro. Já passava das 10, e eu ainda teria que dirigir por duas horas!! Mas assim que chegamos na cidade de Aracoiaba, pedi uma Coca-Cola daquelas de trincar os dentes! Que alívio!
No final das contas, cheguei em casa depois de meia noite. Cansado, imundo, todo cheio de espinhos, mas com vontade de voltar, mesmo depois de todo o perrengue!
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