Caído de costas no cascalho, totalmente imóvel, vi acima de mim um longo feixe de luz muito branca que cortava a chuva e sumia numa névoa densa. O desconhecido? A dúvida flutuou no ar noturno por um interminável segundo. Recuperei então o senso e tive uma boa crise de riso.
Ainda não chegara a minha vez. O facho de luz vinha da minha headlamp, e a intensidade era resultado da lâmpada halógena que eu colocara no lugar da original, exatamente para encarar os pouco mais de 50 km entre Diamantina e Conselheiro Mata. Olhei pra trás sobre meus ombros doloridos e vi minha bicicleta meio que espetada no chão, a roda traseira bem acima do solo. Levantei-me coberto de lama e percorri de volta, desta vez a pé, os 3 ou 4 metros que eu acabara de cobrir... por via aérea! Só então compreendi o que acontecera.
Eu havia descido do ônibus na rodoviária, à 1h30 da manhã de um sábado de dezembro. A bicicleta havia sobrevivido ao bagageiro cheio de malas e caixas mas, como estivesse cercada por tudo aquilo, o motorista havia se recusado a me deixar no início da estrada de terra para Conselheiro, 10 quilômetros atrás. Só depois que todos os passageiros desembarcaram suas coisas pude retirar a bike. Estiquei as pernas e tirei a headlamp do pochetão. Como caísse uma garoinha fria, peguei também a capa de chuva e acertei o capuz bem justo por sobre o elástico da Zoom. O resto de minha tralha estava na mochila, que os amigos preguiçosos trariam quando viessem de carro, dois dias depois. Fazê-los trabalhar gratuitamente como Sherpas era minha vingancinha particular, por terem desistido de me acompanhar no último minuto. Pedalei forte para recuperar os 10 quilômetros extras de asfalto até o início do trecho planejado, e não encontrei caminhões nem qualquer contratempo.
Já a estrada de terra, na época apenas um caminho rústico, era um caso à parte. Deveriam ser exatos 52 quilômetros até meu destino. Os primeiros dois eram totalmente planos, mas cobertos de uma seqüência interminável de costelas, que me obrigaram a fazer o trecho muito lentamente, e pedalando de pé. Eu havia previsto um ritmo diferente, e minha ansiedade crescia. Apareceu então uma boa descida. Ao perceber que o solo estava firme e liso, fui ganhando velocidade, mais e mais, por algumas centenas de metros de liberdade e alívio, até que a roda dianteira da bicicleta enfiou-se num mata-burro! Ainda bem que este não havia ME matado, pensei, já recuperado do vôo e imaginando as manchetes engraçadinhas do jornal local.
Tirei a bike do mata-burro e tive que recolocar a roda. O impacto acabou fazendo com que a blocagem rápida se soltasse mais duas vezes durante o trajeto, sempre que eu atolava mais fundo em alguma poça de lama e cascalho. A blocagem traseira chegou a se soltar também numa dessas, dificultando daí pra frente todas as trocas de marcha. Mas nenhuma das novas derrapagens e sustos se comparava à primeira surpresa da noite, e fui pedalando “zen” pensar muito. A chuva não parou, o que era pouco comum para a região. Há uma encruzilhada próxima a um riacho, numa baixada, já no terço final da estrada. Quando lá cheguei, encontrei apenas um grande terreno alagado. Com o cansaço e a baixa visibilidade, acabei escolhendo o caminho errado. Concluí logo isso porque comecei de novo a descer rápido, e sabia que o caminho normal era mais plano. Evitando retroceder, optei por buscar uma via alternativa à direita, mais abaixo. Doce ilusão. Na cerração, voltei a ganhar velocidade, e fui salvo apenas pelo medo de outro tombo. Comecei a reduzir a velocidade como pude e, súbito, a poucos metros, vi sair da bruma a porta de um casebre! Derrapando quase 180 graus, consegui parar a bike pouco antes de entrar, sem usar as mãos pra bater, na casa daquele pessoal. Antes que eu pudesse me desculpar mentalmente pela onda de barro que eu havia lançado na parede bem caiada, o rugido de um cachorro bem grandinho começou a se aproximar, muito rápido, de algum ponto ainda invisível. Só o que consegui fazer foi colocar a bicicleta no ombro e correr feito um louco morro acima. Em movimento, esperei o momento inevitável da mordida - que eu preferia que fosse na canela ao invés de no traseiro -, que milagrosamente não aconteceu. Consegui enxergar uma vala funda à minha direita e, sem pestanejar, joguei nela a magrela e pulei atrás. O espaço era apertado, e o cachorro não deveria se aventurar ali. Da próxima vez que um nativo te contar estórias de almas penadas que correm gritando pelos campos e somem em buracos no chão, nas noites de tempestade, faça como eu: ria-se.
Deve mesmo haver alguma proteção divina para os bêbados e os loucos, porque o totó logo parou de latir. Exausto, matei o restinho de água do squeeze e, com a ponta da capa de chuva e um bocado de paciência, juntei um pouco da chuva pra completar. Cuspi um monte de lama da primeira vez, mas a segunda tentativa já foi mais bem-sucedida. Não havia muito pra mastigar. Puxei a capa um pouco mais sobre a cabeça, e montei uma cabaninha improvisada. Ali dormi o sono dos justos por pouco mais de uma hora, com a bunda mergulhada no barro, e a almofada do calção de ciclismo fazendo ruídos estranhos sempre que eu tentava me ajeitar um pouco. Mas vai ver essa parte dos ruídos foi só algum pesadelo, né.
Levantei-me devagar assim que o dia raiou. Dava pra ver o céu, neblina e chuva temporariamente suspensas. A vala continuava morro acima por mais alguns metros, e segui por ela o mais silenciosamente que pude, puxando a bike pelo guidão. Só no final apontei a cabeça – nenhum cão, nenhuma garrucha, nada – barra limpa. Guardei como pude a capa e toquei os pedais, num ritmo suave, dessa vez. Estava já próximo daquele paraíso pouco freqüentado no norte de Minas, de modo que não havia mais pressa. Passei por um pequeno rebanho que começou a me seguir, correndo. Achei estranho, até ver à frente um pequeno pasto com alguns cochos toscos. Decerto achavam que eu lhes ia levar o desjejum. Meio delirante de fome, cheguei a considerar filar o café da manhã dos bichinhos, mas logo acordei. Com sorte, conseguiria um pão sovado na venda do povoado.
Durante os dias que se seguiram, entre as cachoeiras, os abismos e os grotões de Conselheiro, caminhei com um ar distante, os passos mais largos e lentos que de costume. Os amigos sempre acharam que era resultado do esforço físico e da experiência introspectiva daquela noite. Agora você, por favor, comporte-se, e não vá contar a eles que era por causa das assaduras!
Por: Alexandre Zulato
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Confira a pontuação dessa história na 2ª Etapa:
- Criatividade: 20
- Redação: 20
- Conteúdo: 20