Acordei por volta de quatro e meia da manhã, pois minha casa fica a quase duas horas do ponto de encontro. Ao sair em direção a estação de trem, fiquei apreensivo, pois o local onde moro, assim como noventa e oito por cento do Brasil, é muito perigoso, mas o maior problema, o qual eu não havia pensado antes era: “Como eu vou atravessar sozinho as duas avenidas que ficam perto da estação?” Pois às dez para as cinco da manhã de um domingo não tem muita gente na rua. Entretanto, e para minha sorte, pude constatar o meu engano, pois ao me aproximar da esquina, um tiozinho me disse: “Ô amigo, você vai pular de um avião?” Logo em seguida me ajudou a atravessar, mas não sem antes me questionar sobre onde, como e porque de eu estar com aquela mochila “parruda”.
Galera apreciando a vista
É desnecessário dizer que fui cochilando durante toda a viagem de trem até São Paulo, e é claro, agarrado à minha Deuter. Eu poderia dizer que fui com um olho no peixe e o outro no gato lá no trem, mas, de qualquer forma, em ambos os casos daria no mesmo, não é verdade? Exatamente às dez para as seis, eu já estava plantado na estação de metrô aguardando o resto da tropa.
O primeiro a chegar foi o Léo, logo me contou o episódio da namorada. Em seguida chegou o Petri, relatando sua noite de sábado, por sinal bem etílica. E o último a chegar foi o Álvaro, que demorou um pouco mais por ter ficado perdido na estação. Pensamos em pedir para o cara do metrô chamá-lo pelo serviço de alto- falantes, só para sacanear, mas não deu tempo, ele chegou antes.
Depois da rápida confraternização, fomos para a plataforma pegar o trem com destino a Rio Grande da Serra. Para não dormirmos, achamos por bem permanecermos de pé, claro que não tínhamos pensado que, depois de dez minutos, o trem estaria mais cheio do que feira de domingo. A gente jogava conversa fora e o trem ia…ia…ia…ia…ia…ia…até que finalmente chegou!
Guerreiros com o Vale do Rio Mogi ao fundo
Digo a vocês que meu coração disparou, pois eu estava lá! Sim, eu estava lá! Tão perto, mas muito perto mesmo! A estação de Rio Grande da Serra tem uma arquitetura muito peculiar, vocês podem conferir nas fotos. Dentro do trem, a temperatura estava em torno de vinte e sete graus, entretanto lá fora girava em uns dezoito graus aproximadamente.
O Léo parecia um turista chegando na Disney, disparava a máquina fotográfica em todas as direções. Quando você sai da estação de trem, precisa pegar um busão até Paranapiacaba, o trajeto até lá leva cerca de vinte minutos.
No ponto de ônibus, além de nós, só havia um tiozinho ouvindo rádio, de repente o Léo e o Petri começaram a cantarolar uma música de uma banda ou cantor, sei lá, chamado Zeca Baleiro. Manos, foi aí que aconteceu! Uma hippie saiu do nada e começou a puxar assunto. Eu tenho toda a certeza que foram os vinte e cinco minutos mais torturantes da minha vida, pois fora os papos chatos sobre Zeca Baleiro, Vanessa da Mata, uma cantora chamada Céu, o tal do Cordel do Fogo Encantado e outras pérolas do cancioneiro tupiniquim. Ela era praticamente uma guia da cidade, falava de tudo e de todos de Paranapiacaba, desde a pinga de Cambuci (essa que o Álvaro ficou doido para provar), até uma dança com velas no cemitério (sai prá lá assombração), e não fechava a matraca por nada. Finalmente depois dos longos e torturantes vinte e cinco minutos, chegava o busão. Claro que não preciso dizer que sentamos o mais longe possível da hippie.
Igor Balestra, Alvaro Neto e Rodrigo Petry durante a trilha
A viagem foi bem rápida, e em pouco mais de quinze minutos já estávamos em frente ao cemitério de Paranapiacaba, onde fica o ponto final. A cidade tem uma aura mística, pois segundo a riponga, naquele final de semana haveria umas trocentas atividades de cunho místico/espiritual/estranho.
Depois da famosa foto na frente do cemitério (tirada pela supracitada hippie), fomos em busca da trilha. Rapidamente chegamos à parte baixa da cidade, onde pensávamos estar o início do nosso objetivo, mas nos enganamos. Segundo as informações obtidas de um cara no bar, a trilha ficava perto do estacionamento, ou seja, na parte de cima da cidade, além do cemitério. Depois de enchermos as garrafas e de comermos uma ou duas guloseimas, seguimos na direção indicada.
Durante o caminho, Léo e Petri aproveitavam o dia limpo, de céu azul e livre de nuvens (fato raro na região) e tiravam inúmeras fotografias. Passamos por um grupo que estava fazendo alongamento orientado por um guia, e chegamos ao início da trilha. Quando eu soube que dali para frente era só decida, barro, buracos e muita, mas muita flora bacana e visuais lindos, eu parecia uma criança indo pela primeira vez ao Play Center.
Arrumei minha mochila, regulando-a de tal forma que ficasse rente ao meu corpo a fim de manter o equilíbrio, amarrei novamente meu All Star, o qual não sei se era o calçado mais apropriado para trilhas, mas, de qualquer forma, eu não tinha outro mesmo, e seguimos em frente. Os primeiros cinqüenta metros da trilha mostraram-se os mais acidentados. O percurso era repleto de buracos com mais de quarenta centímetros, e nossa atenção precisou ser redobrada. O Álvaro se revelou um guia muito bom, pois sabia como ninguém me dar as coordenadas necessárias de onde colocar ou não os pés. Assim, tocamos para baixo… para baixo…para baixo…
Essa trilha foi usada pelo Padre Anchieta quando este chegou ao Brasil. O valor histórico foi muito importante para nós, pois além de aproveitarmos demais a trip, imaginávamos como o senhor Anchieta fez para subir toda aquela serra…
Continuamos andando….
Igor com sua nova mochila
Escorregões e tropeços não faltaram, ainda mais da minha parte. Léo e Petri seguiam na frente, fotografando tudo e todos. Sim, eu disse todos, pois a trilha parecia um shopping center no final do ano. A toda hora tínhamos que dar passagem para algum grupo ou trilheiros solo. Enquanto isso, eu sentia a textura das plantas, o ar puríssimo, o cheiro das flores e, é claro, os espinhos detonando minhas mãos…
Descíamos cada vez mais pela trilha. De vez em quando eu caía ou escorregava com a bunda no barro, mas nada como uma rápida levantada para afastar o medo dos meus amigos de que eu pudesse me machucar. Mas se vocês pensam que somente eu havia sido batizado pela trilha, estão redondamente enganados, pois o Léo e o Petri tomaram uns bons capotes também. O Álvaro estava doido para conhecer uma ponte que ele havia visto num relato, mas não abria qualquer janela na vegetação, até que: “Olha ali, mano!” Gritou Léo. “É aquela ali!”
O Álvaro não pensou duas vezes, me largou e correu para ver a tal ponte. Graças a Deus que essa trilha não é de nível difícil, pois seria impossível uma pessoa com restrições visuais andar por ela, se fosse o caso. Ficamos ali parados contemplando a tal ponte, enquanto Léo tirava fotos da estrutura, Álvaro parecia hipnotizado pela mesma. Bem, mas o caminho era longo e novamente nos pusemos a caminhar. Ora era o Petri que contava algum causo, ora era o Léo, que demonstrou ter muitas afinidades com a riponga do ponto do busão. Álvaro e eu contávamos, vez ou outra, uma piadinha…
Caminhamos até nos depararmos com o primeiro grande desafio da trip: cerca de três metros da trilha havia desmoronado devido às chuvas de Março, e isso fez com que a mesma ficasse com cinco metros de queda livre! Então, seguimos pé ante pé, espero que esse ato, típico do Indiana Jones, tenha sido registrado pela lente do nosso fotógrafo. E tocamos para baixo…
A trilha demonstrou ser, de certa forma, fácil, pois não havia bifurcações e a picada era bem óbvia. Passamos por uma pequena queda d’água, onde nossos rostos e garrafas foram presenteados com a mais pura água da montanha, pelo menos prefiro pensar que era.
Não posso deixar de falar um pouco das meias da Lorpen. Elas são extremamente confortáveis e não deixam os pés molhados, mesmo eu usando um tênis que não é o mais apropriado para caminhadas, elas se mostraram eficazes.
Rodrigo Petry, Igor Balestra e Alvaro Neto andando sobre as pedras escorregadias da trilha
Eu contei cerca de três mirantes propriamente ditos na trilha. No segundo, onde temos uma bela visão do vale em toda sua extensão, paramos para beliscar alguma coisa e reabastecer as garrafas com Suum. Este repositor é excelente, pois eu treinei oito quilômetros tomando Suum e oito só com água, a diferença é gritante. O Suum não me deixou desgastar tanto, além de ser muito prático, pois enquanto eu tomava na minha garrafa, tinham mais dois litros em tratamento na mochila.
Ficamos cerca de dez minutos neste mirante, e nesse tempo passaram por nós cerca de trinta pessoas. Até um casal de idosos estava por lá, bacana, né?
Quando voltamos à trilha, surgiu o segundo grande desafio: descer um degrau de mais ou menos um metro e oitenta. Minha bengala, que fazia as vezes de bastão de caminhada, neste caso não adiantaria, pois só dava pra descer utilizando o barranco como apoio ou fazendo da vegetação do lado esquerdo um corrimão natural. Analisei por cerca de dois minutos qual seria a melhor opção. Escolhi o tal corrimão. Ainda bem que sou alto, tenho um metro e oitenta e cinco, pois fiquei pensando como o casal de idosos faria para descer.
já eram onze horas da manhã, e naquela altura o sol castigava nossos rostos e braços. Eu tinha levado um protetor solar, mas quem disse que eu lembrei de usar? Eu sou tão moreno que na escola me chamavam carinhosamente de bunda de albino.
Seguimos tocando para baixo…
Rodrigo Petry, Igor Balestra e Alvaro Neto sob a entrada da trilha intermediária
Léo e Petri interagiam com alguns insetos e plantas bem diferentes, enquanto eu escorregava e, vez por outra, batia com meu traseiro no chão da trilha. Eu me sentia muito bem, estava realizando um sonho!
Todos nós estávamos super empolgados em chegar ao rio, nosso objetivo naquela manhã linda de sol. Ao adentrarmos pela direita, na mata, logo após passarmos batido por um outro mirante, percebemos uma sucessão de pedras soltas, nem preciso dizer que a minha atenção foi redobrada. Encontramos vários riachos no caminho, naquela altura do campeonato, qualquer refresco para nossos rostos suados era bem-vindo.
Continuamos tocando sempre para baixo…
Com a sombra da mata novamente a nos brindar com seu frescor, conseguimos condições para uma nova sessão de fotos maravilhosas do senhor Léo, mais conhecido como: “o paparazzi da floresta”.
Perto do meio-dia, eu ouço do Petri: “Igor ferrô!” Travamos a caravana e pergutei a ele porque. “Lembra que você disse que não tinha bifurcação? Então mano, aqui tem uma!”
Agora f…. pensei eu.
Mas, segundo as informações que eu havia coletado, nesse tipo de situação era só pegar a trilha mais batida, e foi o que fizemos. Depois de algum tempo ficamos sabendo que a picada da esquerda (a menos batida), era a da Cachoeira Formosa, distante dali umas duas horas.
No caminho encontramos três trekkers que tinham se enganado e estavam voltando. Segundo eles, não valia a pena ir até a cachoeira e voltar, isso porque era meio-dia e meia. Então, tocamos para baixo….
Depois de passarmos por mais um riacho de águas límpidas e virarmos levemente para a esquerda, chegamos a um declive bem acentuado. Desta vez Léo estava na minha frente, guiando, e Álvaro vinha logo atrás do Petri, fechando a trilha. No segundo declive, que parecia ser mais fácil do que o primeiro, por volta das treze horas mais ou menos, depois de vencer uma pedra solta e apoiar a bengala do lado direito, eu ouvi “poc”, e meu corpo foi projetado para frente e para baixo. Quando dei por mim, estava estirado no barro com o que sobrou da minha bengala e o Léo perguntando se estava tudo bem. Naquele momento eu sabia que tinha acabado, não seria possível prosseguir sem minha bengala, seria impossível andar sem apoio. Álvaro tentou improvisar um galho para servir de bengala, mas o mesmo não era forte o suficiente. Tentei andar com ele para ver se dava para continuar, mas não deu. Depois de várias opiniões, chegamos ao consenso de que seria melhor retornarmos, pois a trilha ficaria impraticável.
Confesso a vocês que me decepcionei um pouco, mas ao mesmo tempo me sentia muito feliz por estar naquele lugar e por ter conseguido chegar até aquele ponto. Meus amigos me davam força e diziam palavras de apoio, é nesse momento que não consigo entender os caras que só fazem trilha solo, pois foi primordial a amizade deste grupo. Bem fazer o que, né? Só restava subir tudo novamente…
Segundo relatos, essa trilha demorava duas horas e meia para descer e três horas e meia para subir. Não sei se foi por ter me preparado bem ou por todos nós estarmos bem dispostos, ou quem sabe até por querer chegar logo ao asfalto e tomar um refrigerante gelado, ou no caso do Álvaro uma pinga de Cambuci. Só sei que fizemos o trecho de volta em uma hora e meia, isso porque estávamos a menos de meia hora do rio.
No penúltimo mirante, paramos para recarregarmos as energias com algumas guloseimas como: “club social”, pães de queijo, as sobremesas Leofoods e bolinhos que o Léo havia trazido. O caminho de volta foi bem rápido, só paramos duas vezes para bebermos água e para algum descanso, e mais ou menos às quinze horas, pisávamos no asfalto novamente. O sol estava a pino, e uma sombra se fazia necessária. Ainda cogitamos a possibilidade de fazermos uma trilha de aproximadamente uma hora e meia, mas devido ao horário, ao cansaço e ao fato de que os ônibus que faziam o trajeto de volta a Rio Grande da Serra só partiam de uma em uma hora, desistimos. Até que demos sorte, pois a próxima condução saía às quinze e vinte e cinco, e depois de um rápido descanso, e do Petri estar devidamente calçado com seus chinelos, embarcamos para a estação sentido Sampa.
Já na estação, conseguimos a “façanha” de sentarmos ao lado de outra riponga, a qual queria de todo jeito puxar assunto, mas nem o Léo , que é o mais falante e educado de nós, quis saber de papo. Assim, apenas os cochilos nos acompanharam na viagem de volta. Ah, já estava me esquecendo de mencionar uma coisa. Vocês devem estar se perguntando: “Como ele foi para casa sem a bengala?” “Será que ele usou o galho até em casa?” A resposta é: Não! Não mesmo! Apesar de admirar o nosso profeta Moisés, eu não queria ser comparado a ele; barbudo e andando com um cajado na mão!
O Petri foi comigo até a estação de metrô Barrafunda e de lá os funcionários me encaminharam, e em Carapicuiba, minha esposa Simone já me esperava.
Eu gostaria de agradecer a todos aqueles que tornaram possível a realização desse sonho. Agradeço a Deus por poder andar e sentir os cheiros, texturas e sons da natureza. Agradeço a minha esposa pelo apoio e companheirismo. Agradeço aos amigos que me levaram a essa parte de São Paulo tão desconhecida pela maioria. E agradeço a Deuter, ao Marcus Araújo e a toda equipe Proativa por terem me proporcionado essa experiência fantástica.
A mochila Deuter se mostrou perfeita, pois em nenhum momento senti o peso em meus ombros, fato que comprova a perfeita transferência do peso para a barrigueira, e olha que eu tinha cerca de nove quilos na mochila! O equilíbrio foi, também, um ponto forte, pois, com os devidos ajustes, ela em nenhum momento
me puxou para trás. Obrigado Proativa por me presentear com esse equipamento maravilhoso.
Por fim, não pude fazer essa trilha completa, mas da próxima vez irei mais bem preparado, com um bastão de caminhada de preferência. Farei o percurso em dois dias para poder aproveitar ao máximo tudo que aquele lugar lindo e tão pouco conhecido tem a oferecer.
Grato pela leitura!
Por Igor Balestra












Igor, achei muito legal a história.
Parabéns pelo texto e pela sua força de vontade!!
Igor, cara Parabéns!!!! que essa sua força de vontade te leve cada vez mais longe!!! eh desse tipo de leitura que precisamos para lembrar que não devemos deixar de fazer o que queremos por causa da rotina! estou iniciando meu filho de 3 anos em algumas trilhas e aproveito para sugerir o Parque estadual da Cantareira (dentro de SP e com uma infraestrutura muito boa) vale a pena conferir. Que Deus o ilumine Igor!! e seja bem vidno à familia dos Trekkers! Familia de gente muito Boa!!! Parabens também ao site Adventure Zone! site de ótima qualidade!!! abraços
parabensss!!! adorei o texto, espero que você termine a trilha, estou curiosa para saber o resto da história. eu fui para minas gerais com meu marido, e tive muitas aventuras também, como andar a cavalo, andar de bote, de moto, em fim me identifiquei com sua história. espero que você sempre possa contemplar esta natureza bela que deus nos deu, parabens.