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Sublime Iguaçu

Sempre fui fascinado por eventos extremos da natureza, como erupções vulcânicas, mares revoltos, céus tempestuosos, tempestades elétricas, avalanches, inundações, assim como por lugares onde a natureza se mostra de forma mais intensa, como montanhas com abismos vertiginosos, cataratas poderosas, florestas tropicais, fascínio que vem do prazer e do medo de vivenciar a natureza no seu lado mais incontrolável e transformador.

Sentimento que o irlandês Edmund Burke na sua obra mais conhecida publicada em 1757 – Investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias sobre o Sublime e o Belo – chama de Sublime, que resumindo, significa o prazer que temos diante do que nos assombra, arrebata, intimida, perturba.

Entre outros lugares que pude vivenciar esse sentimento, um dos que mais me marcou foi às cataratas do Iguaçu. Com suas mais de 275 quedas ao longo de 2.7km, atingindo até 80m de altura, é um dos espetáculos da natureza mais grandiosos que tive o prazer e o medo – o sublime – de presenciar.

É difícil passar para o leitor por palavras essa sensação, não sou um poeta que suavemente monta um jogo de palavras que expressa o que sente sobre determinado assunto envolvendo o leitor o transportando para o lugar, e qualquer tentativa minha de tentar expressar por palavras o que senti diante de tamanha força e beleza, não seria um retrato fiel desse sentimento.

O naturalista britânico Charles Darwin na viagem que fez ao redor do mundo no navio HMS Beagle –  http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Viagem_do_Beagle – diante da grandiosidade da natureza disse:

“É fácil especificar os objetos de admiração individual nessas cenas grandiosas, mas não é possível transmitir uma idéia adequada do que sejam as sensações de maravilha, surpresa e devoção que enchem e elevam a mente”.

Como não sei expressar essa sensação com fidelidade, fiz uma seleção de frases de quem vivenciou esse sentimento aos quais ilustrei com algumas fotos minhas, para tentar de alguma forma – pretensiosa por sinal – transmitir o que senti, não só visualmente, que é o mais óbvio e limitado dos sentidos para quem busca um maior contato com a natureza, mas com o ao mesmo tempo ensurdecedor e relaxante som do poder das águas, o suave e revigorante aroma da floresta, e o refrescante toque da água ao caminhar pelas passarelas, Iguaçu é uma rica experiência dos sentidos.

“Tudo o que se destina, de algum modo, a suscitar reações de dor ou perigo, ou seja, tudo o que se relaciona a objetos assustadores, ou opera de maneira análoga ao pavor, é fonte do sublime, isso é, produz a emoção mais forte que a mente é capaz de sentir.”

Edmund Burke

http://educacao.uol.com.br/biografias/edmund-burke.jhtm

“Preciso de corredeiras, rochas, pinheiros, florestas em decomposição, montanhas, trilhas toscas e precipícios ao meu lado, e que me amedrontem, pois o estranho, na minha predileção por abismos, é que estes me causam vertigem, sensação que muito me agrada, desde que eu esteja firmemente posicionado.”

Jean Jacques Rousseau

http://educacao.uol.com.br/biografias/jean-jacques-rousseau.jhtm

“Temos a impressão de sentir a terra tremer, temos instintivamente, o impulso de fugir; todas as nossas faculdades são tomadas por uma sensação de atordoamento, medo e uma perturbação inexplicável.”

Jacques Cambry

http://en.wikipedia.org/wiki/Jacques_Cambry

“Quem se aventurar a olhar para baixo percebe, que se o pé escorregar, a pessoa despenca daquela altitude terrível sobre as rochas, de um lado, ou o mar do outro. Mas o pavor sem perigo é um dos prazeres da imaginação, uma excitação voluntária da mente que só perdura enquanto agrada.”

Samuel Johnson

http://pt.wikipedia.org/wiki/Samuel_Johnson

” Meus membros tremiam – deite-me de costas, a fim de descansar, e como de hábito, comecei a rir de mim mesmo, da minha insanidade, quando a visão dos rochedos acima de mim, de ambos os lados, e das nuvens impetuosas acima deles, correndo céleres e escuras no sentido norte, deixaram-me extasiado.

(…)  Quando a Razão e a Vontade partem, o que nos resta senão as trevas e a obscuridade e a vergonha e a dor que sobre nós imperam, nosso prazer fantástico, que conduz a alma pelos ares de muitas formas, como um bando de rouxinóis ao vento.”

Samuel Taylor Coleridge

http://pt.wikipedia.org/wiki/Samuel_Taylor_Coleridge

“A paixão a que o grandioso e sublime na natureza dão origem, quando essas causas atuam de maneira mais intensa, é o assombro, que consiste no estado de alma no qual todos os seus movimentos são sustados por certo grau de horror. Nesse caso, o espírito sente-se tão pleno de seu objeto que não pode admitir nenhum outro nem, conseqüentemente, raciocinar sobre aquele objeto que é alvo de sua atenção. Essa é a origem do poder do sublime, que, longe de resultar de nossos raciocínios, antecede-os e nos arrebata com uma força irresistível. O assombro, como disse, é o efeito do sublime em seu mais alto grau; os efeitos secundários são a admiração, a reverência e o respeito.”

Edmund Burke

http://educacao.uol.com.br/biografias/edmund-burke.jhtm

“Rochedos audazes sobressaindo-se por assim dizer ameaçadores, nuvens carregadas acumulando-se no céu, avançando com relâmpagos e estampidos, vulcões em sua inteira força destruidora, furacões com a devastação deixada para trás, o ilimitado oceano revolto, uma alta queda-d’água de um rio poderoso; tornam a nossa capacidade de resistência de uma pequenez insignificante em comparação com o seu poder.”

Immanuel Kant

http://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Kant

O sublime está relacionado com o grandioso, e Iguaçu em Tupi Guarani significa água grande; grande não somente pelo seu tamanho e força, mas pelo poder que a natureza tem de nos arrebatar, assim como apesar de alguns esportes praticados em suas águas, como rafting, Iguaçu não é um lugar que convida a ação, mas a contemplação, como dizia Hermann Hesse:

“Impuro e desfigurante é o olhar do desejo. Só quando nada cobiçamos, só quando nosso olhar se torna pura contemplação, é que se abre a alma das coisas, a beleza.”

Para informações sobre os parques nacionais no Brasil e Argentina, visite:

http://www.cataratasdoiguacu.com.br/portal/

http://www.iguazuargentina.com/espanol/

Livros consultados:

Montanhas da mente, Robert MacFarlane

Viagem de um naturalista ao redor do mundo, Charles Darwin

Arquivado em: Educação Ambiental, Montanhismo, Viagem Tags: Flávio Varricchio

3 Comentários em "Sublime Iguaçu"

  1. jorge actis disse:

    Amigo bom dia
    vendo este testo de Hermann Hess lembrei de um livro que li ha muito tempo (Impuro e desfigurante é o olhar do desejo. Só quando nada cobiçamos, só quando nosso olhar se torna pura contemplação, é que se abre a alma das coisas, a beleza.)
    ‘POdeia me lembra o nome deste livro, hoje tenho 62 anos li aos 20 anos deu um branco
    Grato gostaria de reler……….

  2. Bom dia Jorge
    o livro senão é a arte dos ociosos é o pequenas alegrias, de qualquer forma ambos são excelentes e valem a leitura.

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