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Psicobloc no Brasil

Então galera, estamos à deriva de novo. O barco quebrou novamente. Segundo dia… E a gente táa… a gente tá imaginando que essa trip, vai estar legal não”


Felipe visualizando uma linha

 

Essas eram as palavras que saíam da boca de Felipe Dallorto já no segundo dia da segunda viagem em busca de psicobloc em alto mar. O local era o boqueirão de Arraial do Cabo, o momento era aquele que precedia a virada de nossa sorte.

A primeira viagem foi para o arquipélago da Cagarras, litoral do município do Rio de Janeiro, o objetivo era a ilha Filhote da Ilha Redonda. A motivação era um conjunto de fotos que nos foi mostrada por nosso amigo Claudio Brisighello do Escalada Café. Nessa investida, porém, não encontramos psicobloc, o local não era o que pensávamos. Conquista é assim, nem sempre conseguimos o que queremos, mas conquistador, também é assim, não perde o dia… Por sugestão de Arthur Estevez que nos acompanhava juntamente com Michelle Bouhid, Julio Blander e Daniel Virgínio terminamos o dia com boulderes na Ilha Comprida.

A segunda viagem, veio três dias depois. Uma investida frustrada deixa aquele sabor amargo na boca. Parecia questão de honra, num país tão belo, com tanta costa, o psicobloc não podeira estar restrito a rios e lagos. Tínhamos que encontrá-los em alto mar. Eis que veio a memória de muitos comentários sobre as paredes da ilha do Farol e começamos uma vasta pesquisa. Vias de escalada conquistadas em fendas, mergulhos em grutas rochosas, passeios de caiaques, cada imagem que achávamos, cada relato que líamos era a certeza que ali estariam os psicoblocs desejados.

Não tínhamos tempo a perder, com os feriados de Tiradentes na quarta e São Jorge na sexta, emendamos a quinta e partimos na terça de madrugada. Estrada vazia e as 2 e meia da manhã já estávamos dormindo na pousada sonhando com o dia seguinte.

Eis que nesse momento a historia ainda não tinha dado sua reviravolta, estávamos ainda na sombra da primeira investida. E começaram as complicações da segunda.

A primeira dificuldade foi convencer os barqueiros locais a nos levar. Pra eles é muito melhor encher um barco com 20 turistas e levá-los a um roteiro pré definido. Negocia daqui, negocia dali e o jovem Joãozinho aceita a proposta.

Segunda dificuldade, encontrar linhas. Contornamos a rocha e à primeira vista ficamos receosos, a formação rochosa é bem lisa, com agarras invertidas, mas vimos algumas possibilidades. Mas era tudo tão incerto, tão grandioso, difícil até de decidir por onde começar. Melhor era continuar olhando. Mas pra nossa surpresa, com apenas uma hora de passeio, o barco quebrou. Próximos a ponta do Focinho, com a maré nos levando para alto mar, ficamos à deriva esperando resgate. E assim se foi o primeiro dia de exploração.


Felipe Dallorto negociando com os barqueiros

 

O dia seguinte começou com muita expectativa, após tanto investimento ainda não tínhamos feito nenhum psicobloc. Porém não foram necessários nem 20min no barco para no ânimo baixar de vez. Na boca da enseada o barco quebrou novamente e voltamos ao momento que deu início a este relato. Estávamos à deriva, esperando resgate, mais uma vez.

Eis que nossa sorte estava prestes a mudar. Um barco de nome Estrela de David surgiu com o marinheiro Weverton que ofereceu ajuda. Ele ouviu nossos planos e a curiosidade do que viria a ser tal “psicobloc” o levou a ser nosso barqueiro do dia.

Daí tudo começou a fluir. Guiados pelo que vimos no dia anterior seguimos direto para a Fenda de Nossa Senhora e lá saiu a linha “Eu acredito em milagres”, homenagem a musica dos Ramones e ao momento, milagroso, que finalmente aconteceu.


Felipe Dallorto na via “Eu acredito em Milagres”

 

E no mar tudo vem em marés, foi só passar algumas enseadas que vimos um belo negativo. Bem no lugar conhecido como enseada do meteorito, pois ali tem um grande buraco redondo que remete justamente a queda de um meteoro. Nessa parede abrimos a via “Estrela de David”, homenagem ao barco do resgate.


Felipe Dallorto na via “Estrela de David”

 

E se no dia anterior só víamos abaulados invertidos, parece que nesse dia nossos olhos também mudaram. As linhas iam surgindo a cada navegar.

Numa pequena enseada encontramos um linha fácil de incrível beleza, batizamos de “Perfume da Gaivota”. O sol já baixando ao fundo deu um ar especial a esse momento de alegria, os psicoblocs estavam aparecendo.


Flavia dos Anjos na via “Perfume da Gaivota”

 

Mas a idéia era explorar, e continuamos a contornar a ilha. Passando a ponta do Focinho o mar muda, fica bem mais agitado. Algumas linhas interessantes nos chamaram a atenção, mas não era o momento de entrar. Ali a palavra psicobloc faz grande jus ao prefixo “psico”. 

Voltamos em direção à face leste e as linhas não nos davam trégua, continuavam a surgir em nosso horizonte. Vimos nesse momento um das mais belas vias que conquistamos, uma grande fenda de oposição com cerca de 15 metros. A forma curva da fenda batizou a linha que ficou sendo “Cavalo Marinho”.


Flavia dos Anjos na via “Cavalo Marinho”

 

Antes de partir, apesar do cansaço, decidimos encarar o último e mais promissor desafio. Uma parede com negatividade constante, em torno de 40 graus numa rocha reta preenchida de diedros cegos e abaulados que levam a uma sequencia de regletes traiçoeiros.

Nessa parede encaramos uma diagonal de abaulados que no fim foi batizada de “Canoa Quebrada”.


Flavia dos Anjos na via “Canoa Quebrada”

 

Era o fim das conqusitas, hora de descansar, e no caminho de volta e fomos abençoados, na volta, por uma orquestra da natureza. Mas de trinta golfinho cercavam nosso barco assoviando seus sons magníficos encerrando o dia.


Golfinho que abençoaram o fim das conquistas

 

A sexta-feira seguinte foi só aproveitar os frutos do dia anterior, muitas escaladas, muitas imagens, e por fim uma pequena pescaria para completar o feirado. A noite decidimos curtir a simpática cidade e comemorar com um belo vinho.

Abraços a todos e boas escaladas

Flavia dos Anjos e Felipe Dallorto

 

Agradecimentos 

Queríamos agradecer a NicoBoco, a Deuter e Sea,To Summit cujas lycras, mochilas e sacos estanques foram essenciais para o sucesso da viagem. E também aos amigos Cláudio Brisighello pela “pilha” e ao Flávio Carneiro e ao André Penna pelas informações e dicas fornecidas.

Arquivado em: Deuter

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1 Comentário em "Psicobloc no Brasil"

  1. Gostaria de ter mais informações, fiquei interessado e humildimente digo q sou marinheiro de primeira viagem mas com muita disposição e vontade. dannilopq@gmail.com

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