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Peru 2010 / parte 2

 Esfinge.

Andrea com a muralha no fundo. Nessa foto pode-se perceber o tamanho da montanha.

 

Esfinge me parecia ser o grande objetivo da Andrea nessa temporada, ela estava colocando muita energia e muita “vibe” boa pra isso acontecer.

Um cume rochoso de 5.325 metros e um desnível de parede com 750 metros, onde a via mais fácil é a Ruta 85, passando por lances de 6b e 6c Frances. Normalmente essa via é feita em dois dias, mas com a evolução da escalada e a onda do estilo Speed Climbing, cada vez mais os escaladores estão fazendo a ascensão em um dia.

Após umas 4 horas saindo de Huaraz chegamos a Laguna Paron de onde sai a trilha para o Acampamento da Esfinge.

Trilha toca pra cima até o acampamento base.

 

Esse “acampamento base” fica de duas a quatro horas caminhando de Laguna Paron e a 40 minutos da base da parede e tem água corrente e limpa em abundancia. Quando chegamos tinha uma dupla de norte americano que iriam tentar a montanha no dia seguinte e um casal de chilenos.

Quando a trilha fica mais plana.

 

Por conta dessa caminhada decidimos levar só comida liofilizada e na conta certa.

Nosso plano era chegar e no dia seguinte encordar as três primeiras enfiadas de escalada, dando oportunidade à Andrea guiar um pouco da via já que teríamos que escalar muito rápido da P3 pra cima.

Ainda no acampamento trocando idéia com os chilenos, descobrimos que eles tinham um plano bem próximo ao nosso então decidimos encordar a parede até a P6 já que tínhamos cordas para isso.

Não madrugamos nesse dia, fomos até a sexta parada da Ruta 85 e eles até a quarta, deixando a parede encordada e voltamos para o acampamento.

Dia que fomos encordar a parede ate a P6.
 
Voltando do Primeiro dia.

 

No dia seguinte todos madrugaram e fomos em direção a parede. A idéia era jumariar (ascensão pela corda utilizando um aparelho) rápido pra ganhar tempo e fazer cume naquele mesmo dia, eu já sabia que a Andrea não tinha pratica no Jumar, mas ela é safa é na segunda corda já tava “nos esquemas”, o casal não tava com uma par de jumar e estavam usando um jumar e o ATC Guid (auto-blocante), mas também não sabiam muito bem como usar esses sistema para subir. Eu ate dei uns betas, mas  mesmo assim demoramos horas para pra chegar até a ultima corda.

Andrea. Acorda e desliga a lanterna … :)

 

No meio do caminho ainda tomamos um baita susto. Antes da P4 existia um mega bloco apoiado num platozinho e sustentada por uma pedrinha, onde a gente passava dando uma apoiada de leve, pois dava pra ver que aquilo ia descer logo logo. Eu já tava na parada esperando a Andrea pra iniciar a escalada e veio um estrondo e sem ver e nem escutar nada do que acontecia lá em baixo pensei: “pronto morreu um, se escutar desespero desço pela corda fixa, se me chamarem também desço, fora isso só me resta segurar minha onda e esperar alguém pra saber o que tá rolando.

Jumariar de Crocs. APROVADO…

 

Depois de alguns poucos minutos que me pareceram horas a Andrea apareceu contornando o diedro e me falou que tava tudo bem, só o Chileno que tinha derrubado o Mega Bloco da P4. Ufa……….. Com esse susto só aumentou a demora na jumariada.

Tomei a decisão de descer abandonando a parede e repensar a estratégia. Os chilenos insistiram em continuar subindo, mas pela demora nas duas outras enfiadas, era certo que eles também iriam descer.

 P6, de onde tomamos a decisão de rapelar.

 

Novamente no acampamento, fomos estudar a nova estratégia de ataque ao cume. Notamos que a melhor opção seria descansar um dia e tentar a montanha num tiro só saindo de uma cova que fica na base da montanha, mas percebemos que não teríamos comida pra isso. Fomos perguntar aos chilenos se eles teriam um jantar e um café da manhã pra dividir com a gente já que eles tinham subido com porteador (homem que leva a carga dos escaladores, como um Sherpa) e tinham subido com bastante comida e pra nossa surpresa foi negado.

Ficamos de “cara” com resposta negativa do casal de chilenos, tudo que é montanhista sabe que onde come um comem três e ainda mais se tem comida pra mais vários dias.

Bem, gente muquirana tem em tudo que é canto do mundo, mas gente boa também tem e no dia que estávamos encordando a parede chegou um casal, a menina era canadense e falava um espanhol fluente, já o menino mexicano.

Os dois com maior pinta de doidão maconheiro, com seus dreadlocks e a fala mansa nos enganaram. Só era um casal careta e de coração grande, quando ficaram sabendo da nossa historia logo se manifestaram em ajudar com o que eles podiam e tinham, nos oferecendo um resto de macarrão e mingau. Quando fui ver o resto de macarrão era quase nada, talvez uns 10 parafusos. :)

Aquilo me comoveu e pensei: “Caramba, olha isso, enquanto uns não têm nada e ainda dividem, outros com sobra nem pensam em ajudar.”

Sei que me alimentei daquela energia boa dos caras e com a pilha da Andrea já estava arrumando minha mochila pra naquele mesmo dia ir bivacar na cova de pedra e tentar escalar no dia seguinte, mesmo sem descansar.

Terminamos a trilha já noite e montamos nosso bivaque (bivaque consiste em dormir em alguma cova ou muro de pedra que te proteja do vento e das intempéries ou ate mesmo ao ar livre) na cova, comemos nosso ultimo Kit de comida da Liofoods e já fomos dormir. Tivemos um dia cheio de caminhada, jumariada e mais caminhada com peso, e nosso dia seguinte seria o grande dia, o dia de por todas as energias na montanha.

Na cova preparando pra dormir.

 

As 5 despertava o relógio, mas a preguiça foi maior e ficamos até as 5:30. Tomamos um café da manha e partimos mais uma vez pra montanha, essa seria a terceira e ultima vez.

Tinha combinado com a Andrea que eu ia tomar a “responsa” de tocar toda a via e ela escalar alucinadamente sem pudores. “se não der, escolhe uma cor de corda, se puxa e corre na parede”. Tudo isso pra fazer a via em um dia e essa é uma difícil escolha, pois você vai mais leve e bem mais rápido, mas em compensação tem que escalar muito rápido e se tiver que passar a noite na parede por N motivos você corre um sério risco de pegar uma hipotermia já que não esta preparado para isso.

As 6:30 estávamos preparados e iniciando a escalada, como já tínhamos feito até a P6 essa parte foi “engolida”, a primeira enfiada foi feita em 10 minutos e as próximas não mais que 20. Da P6 em diante seria novidade e a parte mais difícil da via. Onde provavelmente perderíamos mais tempo.

 Saída da sétima enfiada. Daí para frente foram poucas fotos.

 

A sétima enfiada é a mais dura, onde você deve contornar um teto passando por um lance de 6c e depois uma delicada fissura de 6a. Quando cheguei ao teto coloquei uma peça boa e fui encarar o lance, me senti desconfortável e dei uma voltada, tentei mais uma vez e quando eu vi que a coisa ia ficar feia e faltava um monte de parede pra cima não pensei duas vezes, agarrei o Camalot 2 coloquei o 1 e o .75 na borda dominado o Teto, quando tive a surpresa dessa fissura delicada e bem ruim de proteger, mas linda.

Chegando na P7 teria mais uma enfiada dura e exposta até a P8, o famosos lance da Boveda, nesse lance ou você passa por uma fissura negativa que deve dar um 6b/c ou faz um pendulo e vai por um “face” bem exposto de quinto. Eu como um “plaquero” e acostumado com Salinas certamente escolhi o “face”.

Oitava enfiada. Lance da Aboveda, que optei o pendulo e ir pelo “face”.

 

Da P8 ate a P9 mais lances duros, um “off width” até chegar na Plaza de Flores.

Chegando a Plaza de Flores a escalada muda por completo, aquelas seqüência de fendas obvias acabam e vira tudo uma grande confusão de fendas e blocos onde você tem que tomar muito cuidado pra não se perder ou entra na seqüência de tetos que fica a esquerda e acabar com sua escalada e se metendo numa grande roubada. Chegamos ao platô e virei pra Andrea e falei: “E ae??? Vamos tocar??”

Não tinha duvida da resposta e também não perdemos tempo no platô, inclusive que belo platô.

A neurose de se libertar da montanha era tão grande que nem parávamos para respirar ou tirar foto. A Andrea mal chegava na parada e eu já ia tirando as peças da cadeirinha dela, algumas vezes eu saia escalando em quanto ela ainda arrumava a corda e nem tinha montado a segurança.

Depois de umas duas enfiadas evidentes saindo da Plaza de Flores começamos a nos perder, a linha que seguíamos já não batia com o croqui que tínhamos e começamos a escalar a “francesa” (quando o guia e o participante escalam simultaneamente). Na primeira vez que tivemos que “francesar” a Andrea chega na parada com o olho esbugalhado dizendo: “É a primeira vez que eu faço isso, se eu cair você me segura?” Preferi não responder a verdade pra ela naquele momento pois eu sabia que ainda teríamos muito dessas pela frente.

A escalada continuava nesse mesmo ritmo, muitas fendas ruim de proteger, uma escalada nada óbvia onde eu não encontrava bons lugares para montar uma boa ancoragem. Teve enfiada que eu coloquei um “micro friend” depois de muito tempo mais um .75 e saímos a francesa ate chegar num platô com uns blocos muitos suspeitos onde tive que fazer a parada.

A Andrea mandava muito bem pra sua primeira parede com mais de 700 metros, saiu várias vezes à francesa comigo e passou por uns lances de quinto grau que quando eu passei guiando me preocupei por ela passar a francesa.

Assim fomos por mais de 5 enfiadas em que varias vezes saímos a francesa , nos perdendo e nos achando, tomando susto e relaxando até que encontrei uma parada dupla em chapeleta que me fez relaxar pro completo e percebi que já estávamos muito perto do cume.

CUME da Esfinge.

 

As 16:15 estávamos no cume da montanha, sacamos umas fotos, fizemos uns vídeos e tratamos de correr pro rapel já que teríamos tempo pra fazer isso ainda com luz.

Inacreditavelmente são apenas 3 rapeis pra sair de um montanha com 19 enfiadas e ainda chegamos na cova com um pouco de luz.

Andrea de cabeça feita.
 
Preparando o primeiro Rapel.

 

Nesse mesmo dia entrou na montanha o “casal do bem” que dormiram na Plaza de Flores e o casal de chilenos que dormiram no platô da P3.

O casal “do bem” fez cume, encontrei com eles em Huaraz e tive essa ótima noticia, já o casal de chilenos eu não sei e nem quis saber!!!!!

Foi uma escalada incrível, cheio das incertezas e dúvidas, com muita força de vontade e desafio. Foi a primeira escalada rochosa da Andrea com mais de 300 metros, foi minha primeira escalada rochosa com o cume acima dos 5 mil, foi a nossa primeira grande escalada juntos.

No dia seguinte acordamos cedo e fomos direto para Laguna Paron, só parando no acampamento base para reorganizar as mochilas e guardas o resto do equipo que ainda estava lá. Não perdendo tempo pra voltar a Huaraz, pois já não tínhamos nem comida.

Eu tinha combinado de encontrar com a galera do Rio em Cebollapampa (Base do Pisco), mas com esses dias de atraso por conta da Esfinge tivemos que desistir do Pisco e esperar a galera e Huaraz.

Quando cheguei à cidade escutei uma historia meio estranha da recepcionista do Hotel que me fez esperar ansioso pela chegada do grupo em Huaraz.

Veja no próximo relato.

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