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Parque Nacional do Caparaó

 

Continuando meu trabalho – que é uma grande diversão – de documentação das Unidades de Conservação localizadas em regiões montanhosas pela América do Sul, dessa vez retornei ao Parque Nacional do Caparaó, que está localizado na divisa dos estados do Espírito Santo e Minas Gerais.

http://www.icmbio.gov.br/parnacaparao/

Apesar do acesso mais fácil e usado ser pela cidade de Alto Caparaó em Minas Gerais, o estado do Espírito Santo possui 79,4% da área do parque nacional, parque que conta com algumas das montanhas mais altas do país como o Pico da Bandeira com 2892m e do Cristal com 2770m, entre outras com mais de 2500m de altitude.

Um pouco de história

Em 1859 D. Pedro II determinou que fosse colocada uma bandeira do Império no pico mais alto da Serra do Caparaó, fato que é a provável origem do nome do pico, que até então era considerado o mais alto do Brasil.

Até que em 1954 foi identificada na Serra do Imeri no Amazonas por uma expedição científica promovida pelo Jardim Botânico de Nova York os Picos da Neblina com 2994m e o 31 de março com 2972m, que o “desbancaram” como montanha mais alta, porém a mudança oficial só ocorreu em 1962 com a demarcação da fronteira com a Venezuela.

Eu particularmente considero o Bandeira como a mais alta montanha do país, é uma montanha que não deixa dúvidas em relação a sua localização,ao contrário do Neblina e 31 de março que só são montanhas brasileiras devido a interesses políticos e econômicos do governo devido a estarem em um região de fronteira, tida como ponto vulnerável do território nacional – o Neblina está a 700m da Venezuela – assim como pelo potencial aurífero e diamantífero da região.

Mas voltando ao Caparaó que foi meu destino nessa viagem, estive no parque no feriado da Semana Santa – não gosto muito de viajar em feriados, mas aproveitei a excursão de um amigo que organiza todos os anos um passeio para a região nesse período.

Acampamos no Terreirão, situado a 2370m, que conta com uma área muito boa para acampamento – um gramado com cerca de 600m de extensão – que possui estrutura com banheiros masculino e feminino, pias, lixeiras, um abrigo de montanha ocupado mediante reserva, posto para os guarda parques e uma casa feita de pedras que serve como abrigo para os que não possuem barraca e querem desfrutar das belas paisagens da serra.

Acampamento Terreirão

Acampamento Terreirão

Casa ocupada por quem chega primeiro e que em caso de chuva não oferece muita proteção, já que seu telhado apresenta muitos furos.

Curiosamente constatei que boa parte das pessoas que freqüentam a montanha não são montanhistas, mas sim famílias e grupos de amigos que vão para o pico como se estivessem indo a um passeio no jardim botânico por exemplo.

Encontrei várias pessoas perdidas nas trilhas que seguem o ritual de subir o Bandeira pela madrugada para ver o nascer do sol sem o mínimo preparo. Grupos de 4 pessoas com somente uma lanterna, usando roupas pesadas de lã e jeans, pegando atalhos, consumindo bebidas alcoólicas, pisoteando áreas de vegetação delicada, fazendo suas necessidades próximas a pontos de água, jogando lixo nas trilhas, isso sem contar na algazarra nos acampamentos e nas trilhas, comportamentos não condizentes a quem freqüenta ambientes naturais.

E tudo isso sem nenhuma orientação/fiscalização por parte do parque, que resume sua participação a entrega de um manual de como proceder, parecido com a cartilha do caminhante consciente que é entregue na Serra dos Órgãos, que fica no verso de um papel plastificado com o número de entrada do visitante que deve ser entregue na saída.

Papel que é colocado na mochila pelo visitante, que só lembra-se dele quando da saída do parque.

Os funcionários que ficam no Terreirão parecem que só estão lá para retirar o lixo dos latões e limpar os banheiros – mesmo assim no último dia do feriado – não vi em nenhum momento fazerem uma ronda pelas trilhas fiscalizando e orientando os visitantes, assim como advertirem quem fica fazendo bagunça no acampamento,muitas vezes tarde da noite.

Na própria portaria quando da entrada do visitante, não é oferecida nenhuma orientação, o que deve ser feito, com o visitante perguntando ou não o que fazer.

Em uma recente viagem ao Parque Nacional Los Glaciares na Argentina, em El Chaltén, logo na entrada da cidade está o centro de visitantes do parque, onde ônibus, sejam de linhas regulares ou de alguma excursão, além dos veículos particulares, param (obrigatoriamente no caso dos ônibus) sendo os turistas encaminhados ao centro de visitantes onde são explicadas de forma rápida e de fácil entendimento normas de como proceder na UC.

Seria bastante interessante se os administradores das UC’s formulassem programas de educação ambiental para serem realizados, tanto com as comunidades locais (o que me parece ser feito no Caparaó, onde presenciei um ônibus escolar lotado de crianças uniformizadas indo em direção a administração do parque) como também com os turistas, os quais ao chegarem nestas áreas possam ser esclarecidos sobre a importância da conservação da natureza e conseqüentemente da unidade de conservação que eles estão visitando.

Além de um trabalho de fiscalização rigoroso, que punisse os infratores de forma exemplar. Sem generalizar, mas criança se educa, adulto só aprende quando sente no bolso.

Sei que criticar é muito fácil, ainda mais para quem não conhece a realidade do setor ambiental no país, onde gerir uma UC ainda mais com os escassos recursos disponibilizados pelo governo federal a área ambiental (a natureza nunca foi prioridade nesse país, sendo considerada por muitos um obstáculo no desenvolvimento) é difícil.

Sem recursos não tem como investir na contratação e capacitação de funcionários que atuem na fiscalização e recepção dos visitantes por exemplo. Com isso cabe aos administradores das UC’s gerenciar bem os recursos recebidos e buscar novos investimentos que melhorem a sua estrutura e conseqüentemente a sua conservação.

Outro ponto que gostaria de destacar é o uso de animais (mulas) para transporte de equipamentos e pessoas até o Terreirão e o Pico da Bandeira (não até o cume, mas próximo).

Mulas no terreirão Caparaó

Sei que o seu uso é tradicional na região e fonte de renda para o tropeiro responsável por esse trabalho, mas a exploração por parte dos usuários desse “serviço” chega a ser revoltante, já que expõe os animais a cargas absurdas, sem nenhum controle por parte do tropeiro que está pensando mais na parte financeira do que na saúde dos animais.

Presenciei animais carregando pessoas quase até o cume do Bandeira, que pelo peso, deviam estar com mais de 100 kg, e que não tinham nenhuma condição de fazer uma caminhada de montanha.

Lembrando que é uma caminhada de 6.9 km a partir da Tronqueira (de ida) com 920m de desnível por um terreno bem acidentado.

Passei por eles na trilha próximo ao cume, e os encontrei quando já estava de volta no acampamento, onde a mula espumava e tinha as patas curvadas pelo peso e cansaço.

Meu amigo que freqüenta o parque há alguns anos, já presenciou as mulas carregarem fogões, daqueles de ferro antigos, para o acampamento, imagina o peso disso?

Isso sem contar na erosão causada pelo trafego de mulas nas trilhas, na abertura de caminhos alternativos para a passagem dos animais ou para contornar um trecho mais erodido, o que ocorre na trilha que vai da Tronqueira ao Terreirão, principalmente em sua parte final.

Acabar com esse serviço até por ser uma tradição do local não seria a solução, mas estipular um limite de carga que seja confortável para os animais seria algo que poderia ser implantado,assim como definir uma trilha para quem caminha e uma para os animais,fechando os atalhos e conseqüentemente reduzindo as erosões.

Outro ponto a se destacar é grande quantidade de quatis (Nasua nasua) nos acampamentos, em sua maior parte na Tronqueira, que são alimentados pelos visitantes e quando não o são, roubam as comidas das mesas, entram nas barracas, podendo demonstrar um comportamento agressivo caso sejam contrariados.

Quatis no Tronqueira - Caparaó

Foto por Waldyr Neto

Não se deve alimentar animais silvestres. Ao serem alimentados por produtos que não encontrariam na natureza, modificam seus hábitos e colocam em risco sua sobrevivência, podendo ingerir produtos inadequados, contaminados ou impróprios para seu metabolismo, prejudicando a sua digestão e conseqüentemente sobrevivência. Alimentar os animais silvestres também pode ocasionar o aumento exagerado de determinada espécie, em detrimento das demais, causando um desequilibro para a fauna do local.

Entre outras conseqüências, eles podem sair dos limites do seu habitat natural, buscando alimentos nas casas no entorno da UC.

Fora esses aspectos negativos, causados pela presença humana desordenada, o que tenho a dizer da Serra do Caparaó e que foi o meu objetivo quando dessa visita são coisas boas.

A grandiosidade de suas montanhas que descortinam um horizonte que parece não ter fim e que é entremeado por um mar de nuvens que repousa nos morros mais baixos, é um dos visuais mais bonitos que tive o prazer de presenciar nas montanhas.

Mas essa história prefiro contar por imagens.

Amanhecer no Pico da Bandeira

Amanhecer no Pico da Bandeira

 

Pico do Cristal

Pico do Cristal

 

Amanhecer no Pico da Bandeira

Amanhecer no Pico da Bandeira

 

Por do sol no acampamento Terreirão

Por do sol no acampamento Terreirão

 

Campo de altitude

Campo de altitude

 

Vale Verde

Vale Verde

 

 

Flávio Varricchio
http://photo.net/photos/FlavioVarricchio
http://www.flickr.com/photos/flavio_varricchio/

Arquivado em: Montanhismo, Trekking Tags: caparaó, parques nacionais, pico da bandeira

5 Comentários em "Parque Nacional do Caparaó"

  1. É mesmo triste que as pessoas não respeitem o meio ambiente.
    No Brasil, temos uma fauna e flora tão rica que aos poucos via desaparecendo graças a intervenção do homem. Quanto a educação aos turistas, é de vital importância, não só para a proteção do Parque como para a segurança dos próprios turistas que como você citou acabam subindo a Serra de forma inapropriada e sem equipamento algum. Aqui na Chapada há problemas bem semelhantes, principalmente em feriados, a demanda de turistas é muito grande e alguns acabam se aventurando sozinhos e deixando um rastro de lixo nas trilhas.
    É realmente uma pena que não haja fiscalização competente ou mesmo a intenção de formar uma.
    Parabéns pelo Artigo e as fotos maravilhosas, Flavio.

  2. Juan Rivas Beasley disse:

    Muito boa a matéria, Flavio. Sempre com comentarios oportunos acerca das nossas unidades de conservaçaõ e, principalmente sempre com imagens bem compostas e com aquele olhar de quem sabe o que está fazendo na montanha. Parabéns, amigo.

  3. gerusa palhares disse:

    Lindas imagens Flavio. E mesmo com todos os problemas do parque do Caparao, ja estive la pelos dois lados, enttando por Alto Caparao e Pedra Menina, e de longe o melhor parque que temos no Brasil, apesar de tudo. O nascer e o por-do-sol naquelas montanhas e uma das coisas mais lindas e por isso tanta gente, vai ate la. Descobri em uma das vezes que estive por la que o Pico da Bandeira e o final de uma peregrinaçao do Caminho da Luz.
    Um lugar maravilhoso e imperdivel, mas sempre longe dos feriados e fins de semana. Parabens pelas fotos!!

  4. cristina sobreira disse:

    Estou me preparando para ir ao parque em julho de 2012.E como é a primeira vez tenho lido vários relatos,e vários sites,para saber o que levar ,como ir,e principalmente como me comportar num ambiente tão diferente do que estou acostumada para não dar trabalho a ninguém.É isso que todos deveriam fazer,para chegar lá e só curtir as coisas de Deus.Tem coisas e comportamentos que realmente não combinam.Abraços. Adorei as fotos!!!!!

  5. Otávio disse:

    Oi Flávio, vi seu relato e gostaria que me ajudasse nessa pesquisa. O SEBRAE, por intermédio da VB Marketing, está realizando um estudo sobre a Rota do Caparaó / Pico da Bandeira.

    A pesquisa tem por foco pessoas que realizaram viagens nos últimos 12 meses, para qualquer destino, com o objetivo de entrar em contato com a natureza, observar a natureza ou praticar atividades na natureza. Se a viagem tiver sido para o Caparaó, melhor ainda… Para responder a pesquisa, é necessário ter mais de 18 anos. O público alvo são pessoas que moram nas capitais de MG, SP, RJ e ES.

    Gostaríamos também que indicasse pessoas com esse perfil para participar da pesquisa, encaminhando o link de pesquisa. A participação não é identificada. Será feito apenas um relatório estatístico com as principais conclusões.

    O questionário está disponível no endereço: https://www.surveymonkey.com/s/picodabandeira

    O tempo estimado de resposta é de cerca de 15 minutos, e deverá ser respondido de uma só vez.

    Qualquer dúvida, favor entrar em contato pelo e-mail: [email protected]

    A participação na pesquisa é muito importante para o desenvolvimento da Rota do Caparaó.

    Desde já muito obrigado!

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