0
  
     

Marina Mello, 70 anos, escala a Italianos

Flávio Carneiro e Marina na parada. Foto: Arquivo Pessoal
Marina Teixeira de Mello, com 70 anos de idade, realizou um sonho: escalou a Italianos no Pão de Açúcar. Esta entrevista é para encontrarmos um pouco de sabedoria e inspiração de uma pessoa que não colocou nenhum empecilho diante de um objetivo tão exigente.
Marina, por favor, faça uma pequena apresentação
Marina: Meu nome é Marina Teixeira de Mello. Nasci e vivi quase toda a minha vida em São Paulo, Capital, onde me formei jornalista e trabalhei por muitos anos na Folha de S. Paulo, Jornal da Tarde, Veja São Paulo e outras redações. Depois optei por ser free-lancer, que continuo até hoje. Em Sampa vivem dois dos meus quatro filhos, Patrícia e Eduardo, e os netos, Marcela e Bruno. Os outros filhos – Adriana e Rogério – estão no Rio. Dos quatro, só a Adriana herdou minha paixão pelos desafios e é uma grande escaladora.
Sempre adorei a natureza, aventuras, novas experiências (voar de balão e de asa-delta, saltar de pára-quedas, mergulhar, esquiar)… Em 1998, ainda em São Paulo, fiz um curso de escalada, com o instrutor Ruy Fernandes. Treinava no muro da academia Jump.  Mas foi só quando me mudei para o Rio, em 2001, que virei montanhista. Conheci novos amigos e, com eles, comecei a escalar pra valer, em rocha, e a fazer trilhas pesadas. O “bichinho” das montanhas me pegou!!! Em novembro do mesmo ano, depois de um treinamento intensivo, fui para o Aconcágua, com o Gustavo Telles, Aníbal Sciarretta e Emanuel Nunes Silva. Uma experiência e tanto!!  Passei a treinar na Limite Vertical, e com o Flávio Carneiro, fiz algumas escaladas marcantes, como o K2 do Corcovado.
Então, no final de 2002, me casei com o Joffre Telles de Almeida – meu grande companheiro, montanhista experiente. Desde então, temos vivido muitas aventuras, escalando e fazendo trilhas em altas montanhas.

Há quanto tempo você pensava em fazer a Italianos e qual foi a preparação envolvida para realizá-la?
Marina: Desde que fiz a primeira escalada no Pão de Açúcar (a Bohemia, na face Leste), em 2001, e vi aquele impressionante paredão da frente, bateu a vontade de um dia – quem sabe? – fazer aquela escalada. Mas era só um sonho. Eu não me achava capaz de encarar aquela enorme parede, toda vertical. Ao longo destes anos, escalei muitas vias maravilhosas e inesquecíveis, como  a Passagem dos Olhos (na Pedra da Gávea) e o Dedo de Deus (PNSO).  Mas a Italianos continuava a ser meu “sonho de consumo”… Quando fiz 70 anos, o Flávio – meu grande amigo, excelente guia (e namorado da minha filha Adriana), propôs me dar como presente de aniversário essa grande escalada.
Como treinamento, já que o paredão exige muito esforço e técnica, ele me levou para treinar em algumas vias mais verticais – por exemplo, a IV Centenário, na Babilônia. Em paralelo, peguei firme na academia, malhando todos os dias. E, finalmente, lá fomos nós!!!!!  No dia 13 de agosto de 2009, realizei o tão sonhado projeto!

Conte-nos como foi escalar a via, teve algum momento em que você achou que não iria conseguir?
Marina: Foi a via mais difícil de todas as que escalei – e também MARAVILHOSA! Logo na primeira enfiada a gente enfrenta o crux: uma passagem difícil, delicada, em que cada passo tem que ser pensado … Eu olhava, e não via nem uma agarrinha, uma fendinha… nada onde pudesse firmar a mão ou o pé! A desvantagem de ser baixinha (1m53) é que muitas vezes é impossível alcançar um apoio que, para outros escaladores, é o melhor. Escorreguei várias vezes, mas o Flávio estava atento na segurança, e eu voltava para a pedra, procurando o jeito de vencer o lance. E assim fui tocando pra cima… Em alguns pontos, o esforço era tamanho que quando eu parava em um grampo minhas pernas tremiam, da força exigida. Adrenalina total!
Resolvemos emendar a Italianos com o Secundo, que já é mais tranqüilo, e nos últimos 20 metros subimos pelo cabo de aço, pois já estava escuro. A sensação de pular a gradinha lá em cima e me ver no pátio do bondinho, onde o Joffre (que subiu pelo Costão) me esperava… é indescritível! Meu Deus, que alívio e que felicidade!!!!! Uma emoção tão grande que nós dois chorávamos, abraçados.
Alguém perguntou onde eu tinha ferido a perna, que estava sangrando. Eu nem sei onde foi… Assim como as pontas dos dedos machucadas, os pés doendo das sapatilhas, a exaustão… tudo desaparece quando você se vê na pedra, sente a sua energia. Quando se prende numa parada e contempla a vista magnífica: o mar, as ilhas, as montanhas, a floresta. Quando enfrenta mil desafios…….. e chega ao cume!!! Como sempre digo… nós, montanhistas, somos seres privilegiados!
Serei eternamente grata ao Flávio pelo presentão dessa escalada!  À Marcela e Rodrigo, grandes amigos e escaladores, que subiram pela via ao lado, a “Cavalo Louco”, ele guiando e ela fotografando tudo.  Valeu também a companhia do Pablo, argentino que está conhecendo as montanhas do Rio.

Marina em ação no Pão de Açúcar. Foto: Marcio Mega

Qual o próximo objetivo agora?
Marina:
O próximo projeto?  Escalar a Agulha do Diabo, esse monumento de pedra mágico e misterioso, no PNSO. Sei que vai ser difícil enfrentar a trilha até a base, realmente longa e pesadíssimo. Depois, serão as chaminés, e o tão falado “cavalinho”, um lance super exposto. Mas já imagino que sensação chegar àquele cume!!!……..

Qual o seu recado para as outras escaladoras?
Marina: Meu recado? Não fique sonhando… Corra atrás dos seus sonhos!!!!!!!!!!!!!!!!
A vida está aí para ser vivida intensamente. Não importa a idade! Mesmo que o seu corpo já não tenha a mesma força e resistência de antes, a cabeça da gente é sempre jovem. Sempre haverá um desafio para ser enfrentado — e não há nada melhor do que superar os nossos limites e vencer!


Abraços da
Yuri!

Arquivado em: Deuter, Escalada, Montanhismo Tags: Escalada, Montanhismo

Leia Também!

Favorite e divulgue!

Deixe o seu comentário!

Comentar!

© 2012 Adventure Zone. Todos os direitos reservados. XHTML / CSS Válidos.
Desenvolvimento Mario Nery.