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Hermann Buhl e o Nanga Parbat

Após a morte de 31 pessoas no Nanga Parbat, o cume foi alcançado por um único homem: Hermann Buhl. Esta é a incrível história desta escalada quase sobre-humana. Ele solou a fase final da rota Rakhiot no Nanga Parbat durante a primeira subida em 1953, passou a noite acima de 8.000 metros em uma pequena borda de rocha, e finalmente voltou ao acampamento base depois de 41 horas. Esta subida é agora considerada como uma das maiores façanhas do montanhismo de todos os tempos 

 

Hermann Buhl na subida para a “cabeça do mouro” na aresta leste do Nanga Parbat. Foto: Hermann-buhl.de

 

Tão famoso e difícil como o K2, O Nanga Parbat com seus 8.125m é a nona montanha mais alta do mundo, e um dos quatro picos de mais de 8.000 metros situados na região norte do Paquistão. A montanha é facilmente visível da Karakorum Highway (KKH – que é a mais alta estrada pavimentada internacional do mundo. Ela liga a China ao Paquistão passando pela cordilheira do Karakoram, através da passagem alta de Khunjerab, a uma altitude de 4.693 m) no outro lado do Rio Indus, a meio caminho entre Chilas e Gilgit. A sua característica mais notável é o maior desnível em todo o mundo, com a Face Norte mergulhando mais de 7.000m no Indus. O Nanga Parbat apresenta três faces conhecidas pelos nomes de Raikot ou Rakhiot (Face Norte), Diamir (Face Oeste) e Rupal (Face Sul). A Face Rupal é também uma incrível parede com mais de 5.000m. 

Também conhecida por “montanha assassina”, principalmente devido ao seu histórico inicial e pelas severas tempestades e avalanches, no ano de 1895 assistiu a primeira tentativa pelo inglês Alfred Mummery na Face Diamir onde alcançou a altitude de cerca de 6.100m antes de se retirar. Mais tarde tentaria a Face Raikot onde viria a perecer. Na década de 1930 nada menos que seis expedições alemãs fracassaram, todas tendo pesadas baixas humanas, e assim 31 pessoas tinham perdido a vida na montanha, incluindo a elite alemã do Himalaya do período entre guerras. 

O Nanga foi também o cenário de algumas das piores tragédias da história da escalada alpina. Uma vez que pensava-se que o Nanga Parbat (“A montanha nua”, uma derivação de sânscrito com Hindi/Urdu) seria o mais fácil para escalar dos picos com 8.000 metros, dos 14 existentes no planeta. Isso foi um erro fatal. Como o destino havia reservado, até a montanha mais alta do mundo seria mais fácil de subir comparada a este gigante coberto de gelo e de perigosas avalanches colossais. 

Em 1953, o Nanga Parbat foi novamente alvo de interesse dos alemães. O organizador da expedição alemã – austríaca ao Himalaya de 1953, foi o Dr. Karl Herrligkoffer, que era meio-irmão de Willy Merkl, falecido em 1934 na mesma montanha, e toda a operação era para ser uma expedição “memorial” para este último. Herrligkoffer com sua forma de organização e preparação não ganhou a confiança das grandes organizações alpinas, e ele teve dificuldades para envolver escaladores famosos, como por exemplo Anderl Heckmair e Mathias Rebitsch, que disseram que não participariam. Entretanto, ele encontrou uma dupla de alpinistas com experiência nas grandes altitudes do Himalaya: Peter Aschenbrenner (um veterano da expedição de 1934) e Walter Frauenberger. Por último mas não menos importantes, conseguiu incluir a famosa dupla austríaca dos Alpes: Hermann Buhl e Kuno Rainer. 

Hermann Buhl é considerado um dos melhores alpinistas de todos os tempos, nasceu no dia 21 de setembro de 1924, em Innsbruck (Tirol, Áustria) e o início de sua carreira no montanhismo vem da época do seu aniversário de 10 anos, quando ele subiu sua primeira montanha (Glugenzer, 2.600m). A partir de então ele não conseguia parar de sonhar com montanhas e começou a escalar, atingindo o grau UIAA* VI (grau máximo de sua época). 

Apesar de mínimos recursos financeiros, Buhl sempre teve vários parceiros de escalada, incluindo Luis Vigl, Kuno Rainer, Martin Schließler, Marcus Schmuck, em rotas difíceis nos Alpes orientais e ocidentais, e em parte como conquistas. Estas incluem principalmente a primeira subida da parede oeste do Maukspitze (Tirol, Österreich, 2.231m) em 1943, a primeira ascensão invernal da parede sudoeste do Marmolada (Dolomitas, Itália, 3.343m) em 1950, o primeiro conjunto de “Aiguilles” de Chamonix em 1950, a primeira na Face Nordeste do Piz Badile (Bregaglia, Itália/Suiça, 3.308m) em 1952, ou a oitava subida da face norte de Eiger (Bernese, Suiça, 3.970m), nas condições mais adversas em 1952, e o Pilar Sudeste do Tofana (Dolomitas, Itália, 3.225m) em 1952.  

Para o Nanga Parbat, Buhl foi convidado em 1952 e treinou muito, seu teste final foi o primeiro solo e escalada no inverno da face leste do Watzmann (Bavaria, Alemanha, 2.713m). Até então, 31 pessoas tinham morrido no Nanga Parbat. 

Herrligkoffer conseguiu organizar a expedição na última hora e assim seguiram para o Himalaya. Tudo correu bem e sem problemas, um acampamento base tinha sido erguido durante o final de maio. Os acampamentos I ao IV foram estabelecidos e os mantimentos e equipamentos foram transportados para cima. 

Depois disso, uma forte nevasca e o clima incerto fizeram com que todos os ataques para as regiões mais elevadas se tornassem impossíveis. Em 30 de junho, Herrligkoffer requisitou toda a equipe no acampamento base. Naquela época, não tinham chegado mais alto do que a altitude da expedição de 1932, em torno dos 7.000 metros, que foi liderada por Willy Merkl (que havia retornado em 1934 e infelizmente faleceu). 

No entanto, o clima mudou de repente no dia 1 de Julho. Hermann Buhl, Otto Kemptner, Walter Frauenberger e o cameraman Hans Ertl ainda estavam nos acampamentos superiores. Eles tinham se recusado a retirar-se da montanha e depois de discutirem sobre isso através do rádio, conseguiram permanecer como era de sua vontade. (Houveram conflitos durante todo o tempo entre Herrligkoffer e Aschenbrenner, quem deveria supostamente liderar a escalada). 

Em 2 de julho, Buhl e Kempter estabeleceram o acampamento V, no colo da crista para o Silver Saddle (Colo Prata) a 6.900 metros. Ertl e Frauenberger retornaram ao acampamento IV. As condições climáticas pareciam ter se estabilizado. Buhl planejava, se possível, chegar ao “Silver Saddle” a 7.450 metros e no grande platô acima dele. De lá, ele poderia optar por subir ao cume preliminar ou cume Norte e a honra da expedição estaria salva. 

Buhl era famoso por suas escaladas em solo nos Alpes e já tinha provado sua ousadia e força, e agora ele estava pronto para investir tudo no Nanga Parbat. 

A Escalada Solo

Na madrugada de 3 de julho, em torno de 1h, Buhl deixou a acampamnto V e seguiu para cima, Otto Kempter não se sentia bem e estava com dificuldades de deixar o seu saco de dormir e só partiu uma hora mais tarde. As condições da neve estavam boas e a noite estava clara, com a lua iluminando a montanha. Às 5h o sol subiu acima do horizonte e Buhl chegou ao Silver Saddle. O longo platô de três quilômetros de extensão exauriram as forças de Buhl. O calor era quase insuportável e o ar estava completamente parado. No final do planalto, Buhl tinha um pouco de chá e deixou sua mochila para trás. Agora, ele poderia se mover mais facilmente. Agora Kempter também atingiu o platô, mas Buhl estava se movendo muito rápido, e estava muito à frente. Kempter percebeu que ele nunca iria recuperar o tempo perdido, e então ele decidiu retornar ao acampamento V em segurança. 

Buhl chegou ao colo abaixo do cume (7.800 metros) às 14h, aonde ainda teria a seção tecnicamente mais difícil da subida inteira pela frente e os últimos 300 metros não pareciam promissores. Depois de uma luta interior, ele decidiu continuar, começou a escalar as rochas. Suas apreensões se tornavam realidade, a subida tinha sido particularmente muito difícil e tinha levado muito tempo. Então às 18h, Buhl alcançou o ombro e uma hora depois, ele estava no cume. O tempo estava perfeitamente claro, e o capítulo Nanga Parbat estava acabado para o homem solitário no topo. 

Lá embaixo, Kempter havia relatado que Buhl havia continuado sozinho em direção ao cume, e de cada acampamento olhavam para o Silver Saddle na esperança de ver Buhl no caminho de volta à noite. Mas não havia nada para ser visto, Frauenberger havia retornado ao acampamento V durante o dia e passou a noite lá, juntamente com Kempter. Eles não conseguiam dormir no entanto, pensavam sobre o destino de Buhl. 

A Descida

Enquanto ainda estava no cume, Buhl assistiu ao sol se pôr. Ele bebeu o chá passado e fincou seu piolet (espécie de machadinha para escalada em gelo) com bandeiras do Paquistão e do Tirol fixados a ele e tirou algumas fotos. A noite caía rápido, e ele começou a descer. Acima dos 8.000 metros em uma pequena borda abaixo do ombro, ele foi forçado a um acampamento de emergência, sem saco de dormir ou roupa quente, ele havia deixado a mochila no platô. De pé sobre um pedaço de rocha entre às 21h e 4h da madrugada do dia seguinte, Hermann Buhl passou a noite na “zona da morte” do Nanga Parbat. O vento estava calmo e a noite clara, e apesar de suas roupas finas, o corpo de Buhl controlou o frio, mas estava perdendo todo o movimento em seus pés. Ao amanhecer, ele continuou a descida e subida do colo que foram extremamente árduas. Buhl tomou uma dose de Pertvin (uma espécie de estimulante) e finalmente chegou ao platô aonde encontrou a sua mochila. Ele não estava em condições de comer ou beber qualquer coisa. Perseguido por alucinações lutou para descer por todo o planalto sob o sol ardente. Sua sede se tornou evidente, alguns Pertvin a mais mobilizaram seus últimos recursos de força e às 17:30h Buhl chegou ao Silver Saddle. 

 

Famosa foto no cume do Nanga Parbat (8.125m), em 3 de Julho de 1953 às 19h, com o piolet de Hermann Buhl e a bandeira tirolesa sobressaindo contra o plano de fundo do Karakoram. Foto: Hermann-buhl.de

 

Enquanto Kempter em 4 de julho descia ao acampamento IV, Ertl chega ao acampamento V, para junto com Frauenberger instalar a placa memorial sobre Willy Merkl no local onde a expedição de 1938 tinha encontrado ele, todo o tempo olhando para cima, para o Silver Saddle. Eles planejaram continuar no dia seguinte para tentar descobrir o que havia acontecido com Buhl. Frauenberger voltou para a placa para fixá-la melhor quando de repente ele viu um pequeno ponto no Silver Saddle que está se movendo para baixo. Ele tinha certeza que era Buhl, e sua felicidade por estar reunido com seus amigos era indescritível. A terceira foto que ilustra o texto, foi tirada por Hans Ertl, quando ele conheceu um Buhl com a aparência de 10 anos mais velho após seu retorno ao acampamento V. Foram 41 horas que separaram a partida do retorno de Buhl à sua barraca, ele estava tão desidratado que não conseguia proferir um som, mas para Ertl e Frauenberger o que importava era que ele estava de volta. 

 

Hermann Buhl “envelhecido” após o retorno ao acampamento V em 4 de julho de 1953. Foto de Hans Ertl. Hermann-buhl.de

 

Buhl teve muita sorte no Nanga Parbat, escapando com apenas alguns poucos dedos dos pés congelados. Essa história reflete o estilo de escalada de Buhl, uma lenda e uma fonte de inspiração para muitos mountanhistas de hoje. Hermann Buhl foi excepcionalmente forte, com uma resistência quase sobre-humana e muita força de vontade, totalmente focado e correndo riscos enormes que muitas vezes o levou ao sucesso onde outros falharam. 

 

 

  Nanga Parbat visto da Karakorum Highway (KKH). Foto de Afzal – SummitPost.

 

Quatro anos mais tarde no Broad Peak, Buhl e seus companheiros provaram que, sem qualquer ajuda de carregadores de altitude elevada, uma pequena equipe poderia escalar um pico de 8.000 metros. Mas foi o último cume de Buhl. Alguns dias depois, tentando escalar o Chogolisa juntamente com Kurt Diemberger, ele caiu por uma cornija e veio a falecer. 

Na primeira foto que ilustra este texto, Hermann Buhl aparece em sua subida no Nanga Parbat, utilizando uma mochila Deuter Tauern, a mochila lendária da Deuter, que tinha sido lançada em 1930 e durante décadas permaneceu como um artigo clássico do equipamento dos alpinistas. 

*UIAA – União Internacional das Associações de Alpinismo 

Fontes de Pesquisa:
– Site memorial a Hermann Buhl [http://www.hermann-buhl.de/] em alemão.
– Breve histórico do Nanga Parbat de Jerberyd.
– Site de fotos Wikimedia/flickr.com
– Site de expedições i-explorer.
– SummitPost
– Climbing without compromise – Por Reinhold Messner, Horst Höfler, Hermann Buhl
  

Saiba mais:
Livro: Nanga Parbat Pilgrimage – Por Hermann Buhl
Filmes: Nanga Parbat (1953) – de Hans Ertl
                The Climb (1986) – de Donald Shebib

Por Beto Joly

Arquivado em: Deuter, Montanhismo

2 Comentários em "Hermann Buhl e o Nanga Parbat"

  1. Alceu disse:

    Parabéns pela nova coluna neste site. Acompanho sua performace desde o tempo que escrevia no AltaMontanha e muito me impressionou sua
    escalada em solitário no Tunari (Bolívia), quando fiquei sabendo dos teus planos para escalar o Illampu também em solo. Sucesso nesta nova
    empreitada.
    Alceu ( de Itajaí-Sc)

  2. Nívia disse:

    O Reinhold Messner, que subiu a face sul ou Rupal do Nanga Parbat com o irmão Gunter em 1970, façanha que inclusive custou a vida deste na descida pela face Diamir e quase tb a do próprio Messner, categorizou a Rupal como o maior abismo da Terra com 4500 mts de desnível. Esta aventura dele é descrita no livro The Big Walls de sua autoria. Incrível como eles realizavam essas façanhas com um equipamento tão mais pesado e precário se comparado aos de hoje, como barracas e mochilas com armação de alumínio.

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