0
  
     

Finalmente Laracna.

Salve galera!
No dia 8 de agosto de 2009 eu e Felipe Edney completamos o BigWall A Presença de Laracna. Para completar essa bela via no Pico dos 4 foram necessárias duas investidas que vou narrar nestas linhas.


Cap.1

A primeira investida.


Eu, Felipe Edney e Felipe Dallorto estaríamos saindo de Botafogo às 5 horas da manha do dia 19 de Julho, mas a chuva não parava de cair e tivemos que ficar em casa esperando. Nesse meio tempo o Edney descobre que sua moto roubada tinha sido recuperada e não poderia ir conosco no primeiro dia de escalada.
Conversamos um pouco sobre o assunto e percebemos que ele poderia ir nos encontrar na base da via na noite do primeiro dia de escalada, já com as primeiras enfiadas encordadadas. Isso foi possível principalmente pela proximidade da parede com a cidade e a curta trilha muito bem marcada.

Primeiro Crux – Por todo o equipo em um elevador de 1,5m2.

E assim fizemos. No dia 21 Edney nos deixou (Eu e Dallorto) no inicio da trilha, onde encontramos com o Adrian que deu uma força com os vários quilos de equipamento até a base. Eu e Dallorto com a ajuda do Adrian levamos todo o equipamento para a escalada e mais a alimentação para o dia e o Edney ficou encarregado de levar o resto dos viveres depois que resolvesse toda a burocracia da moto.
Iniciamos a trilha ainda no escuro, logo amanheceu e rapidamente estávamos na base. Enquanto me equipava Adrian se despedia.

Me equipando para a primeira enfiada

A divercidade de equipamento é tão grande que você pode escalar com mais de 5 quilos pendurados no corpo.
Com o inicio da via ainda muito molhado eu começava a ganhar altura, os primeiros metros foi como escalar ao lado de uma pequena cachoeira.
A primeira enfiada é longa, Lances de Cliff de agarra e de buraco, parafusos, Heads, Friends em laca, com direito a lances em livre no molhado. Com uma corda de 50m não foi possível completar a enfiada e tivemos que emendar uma corda na outra.
A segunda enfiada já estava mais seca, mas ainda sim peguei o diedro ainda escorrendo água e o final bem molhado e administrando com a água cheguei no platô da P2. Uma enfiada “cheia” também.

Primeiras proteções
Cliff de agarra – Parafuso – Piton – Parafuso -Cliff de Agarra – Camalot #2

Já anoitecendo Dallorto termina de limpar a segunda enfiada e boto pilha dele guiar a terceira. É uma enfiada bem curta de furo e parafuso com uns 15 metros que ele mesmo guiou, fixou a corda e rapelou limpando.

Dallorto no buraco de cliff da terceira enfiada.

Voltamos à base fixando as cordas e encontramos com o Edney fazendo a janta. Comemos e dormimos ali na base da via.

Edney administrando o rango na base da via.

Segundo dia.

Acordamos amanhecendo, preparamos a alimentação da manha e arrumamos todas as tralhas nos Haul Bags. Iniciamos a “Jumariada” e rebocamos os Bags até o platô da P3.
Na P3 o Edney se equipava para guiar a quarta enfiada e enquanto isso eu reorganizava todo o equipo. No platô da P3, também encontramos alguns litros de água deixados gentilmente pelo Rodrigo Valle e pela Marcelinha em sua tentativa de fazer a via poucos dias antes.
A partir da P3 as enfiadas ficavam mais curtas e os 25m em A2 da quarta enfiada foram vencidos. Porem ganhamos mais um elemento na nossa escalada, os Haul Bags, que nos deixavam um pouco mais lentos, mas isso aconteceu apenas ate à P6.

Dallorto na P3 dando seg. para o Edney.

Quando o Edney terminou de guiar a quarta, fixou a corda para o Dallorto limpar enfiada e eu rapidamente “jumariei” até a parada para ajudar no reboque dos HB. Enquanto o Dallorto limpava a enfiada eu me organizava para sair guiando a quinta enfiada.
A quinta enfiada inicia em um V onde você protege com um Camalot 0.5, mais alguns metros e chega a uma fenda que se escala meio em livre meio em artificial, essa fenda larga logo acaba em uma fissura onde coloquei um peacker umas peças ativas e mais alguns pítons, parafuso, alguns lances em Cliff natural e tudo isso da um A2+ que chega na P5.
Lances 1/2 em livre 1/2 em “A” da quinta enfiada

Edney “jumariou” até a P5 e rebocamos os Porcos (nos EUA os escaladores chamam o Haul Bag de Pig). Sem esperar o Dallorto terminar de limpar a quinta ele logo saiu guiando a sexta que sai em Cliff de buraco e parafuso até uma fenda onde se faz um pendulo ao Grande Platô.

E chegamos ao Platô tão esperado, ele realmente era grande e da para dormir umas oito pessoas confortavelmente. Ali dormimos nossa segunda noite.

Edney guiando a sexta enfiada.

Arrumando a cama para segunda noite.

Na manha seguinte Felipe acordava animado em guiar a sétima que passava por um buraco na rocha com um lance de VI para dominar a fenda que entra no buraco. Mais alguns metros de parafuso e P7. Limpar a enfiada foi bem divertido, devido a negatividade do lance, quando eu tirava as peças eu tomava verdadeiros vôos.

Essa foto mostra a total sintonia que existe entre os dois escaladores no Artificial. Quem ta dando segurança tem que saber todas as peças que ainda estão disponíveis e dar total atenção p/ quem esta guiando a enfiada.


Vôo ao limpar a Sétima.

Nesse dia o Dallorto decidiu ficar no platô enquanto escalávamos e ficou na função de achar o rapel de fuga. Isso foi MUITO bom, pois nos tirava a preocupação da cabeça de como seria a fuga da parede.
Guiei a oitava que sai em um lance de VI passando por parafusos e Cliffs até chegar a uma fenda que escalei parte em livre e parte em “A”, após essa fenda uma seqüência de parafuso e P8.

Edney guiou a nona enfiada. Saindo em um V logo chega numa seqüência de furos e parafusos, Cliffs de agarra ate atingir um platô onde tem um grampo de ½, desse grampo ele saiu em um Piton Angle grande e foi para um Cliff de agarra que quebrou. Depois do susto chegou na P9. Ali teríamos mais umas 3 horas de luz. Era subir e rapelar no escuro ou deixar a P10 para o dia seguinte e foi o que fizemos. Voltamos para o platô deixando a parede encordada ate a P9.
Nessa madrugada ventou muito e a chuva caiu apesar deu não querer acreditar muito. Ainda com muita gana tentei acelerar o café da manha e iniciar a “jumariada”.

Edney “jumariando” ainda sem a luz do dia para a P9.

Rapidamente eu e Edney estávamos na P9, mas o Dallorto deu uma travada após ver sua corda de jumariada mostrando a alma. Eu e Edney combinamos que se desse 7:30 e o Felipe ainda não tivesse chegado na P9 somado ao estranho tempo seria motivo suficiente para voltar ao platô e repensar a escalada.

Duas cordas mostraram a alma

E foi o que aconteceu. 7:30 Dallorto tava na P8 e tempo ainda mais cabuloso. Enquanto Dallorto “jumariava” pensávamos nas possibilidades, se chovesse, se não, se daria para retomar a escalada esperando um dia no platô, se não… Eram muitos se sim ou se não.
Por fim rapelamos tirando as cordas da parede e ainda bem que fizemos isso, pois ao colocar o pé no platô caiu MUITA água e demos a escalada por encerrada. O universo conspirou contra e ainda bem que seguimos suas dicas.

Abandonando a escalada

No platô tivemos tempo de pensar a respeito do que seria feito. Tínhamos que voltar na via e a melhor idéia que tivemos foi deixar o rapel de fuga encordado. Seria apenas 100m de “jumariada” e já teríamos água e um pouco de comida no platô.
Abrigados da chuva no buraco arrumamos os HB e nos demos por vencidos e iniciamos o rapel em baixo de chuva.

Rapelamos em baixo de muita chuva.

Na montanha o mais importante é saber ter respeito e a ser vencido. “Você não vence a montanha, você se liberta dela, é ela quem te domina e não o contrario”.
Mas vencidos apenas naquele momento, a volta já estava como uma certeza e chegando em casa todo molhado a primeira coisa que fiz foi ligar o computador e abrir todos os sites de previsão esperando por uma janela.

Na primeira janela de 4 dias já estávamos com tudo pronto porem o Dallorto não poderia ir e o Edney ainda se recuperava de uma febre. Mesmo assim eu e Edney decidimos voltar à escalada.


Cap.2

Segunda investida

Na foto é possível ver o diedro da quinta enfiada e o teto do grande buraco onde bivacamos.

No dia 06 de Agosto e ainda com o Edney debilitado estávamos saindo de casa. Nossa idéia era chegar ao platô subindo pelas cordas fixas no rapel e encordar a P7.
Dessa vez quem deu uma força foi o Rodrigo Valle. Ele foi com a gente até o inicio da “jumariada”. Quando estava pendurado nos ascensores o Rodrigo se despedia do Felipe e a partir daí era nós dois.
O Felipe se mostrou muito cansado com a “jumariada” e a trilha que leva dos grampos de rapel até o platô foi bem cansativa também.
Novamente estávamos no platô, reorganizamos todo o equipo de bivaque e de escalada, comemos alguma coisa e tomamos água.
Mesmo com o Felipe ainda mostrando sinal de fraqueza devido à gripe era hora de escalar novamente a P7 e o combinado era de quem tivesse guiado as cordadas na primeira investida repetiria p/ não perder tempo, pois já sabia o que iria encontrar pela frente. Como via que o Felipe ainda estava mal me propus a guiar a sétima, mas muito tinhoso e casca grossa o maluco fez questão de guiar a enfiada e foi a melhor coisa que ele fez, pois quando descemos da P7 o cara já estava bem melhor.
Ainda com luz chegamos ao platô e foi esperar o tempo passar, se alimentar bem e dormir para o dia seguinte.
Acordamos com a idéia de chegar a P10 ou P11, só teríamos mais uma surpresa, pois a oitava e a nona enfiada já tinham sido feita por nós antes. Já com luz do dia estávamos na P7 e eu me preparava p/ guiar a P8. Novamente guiávamos a oitava e a nona enfiada e chegando na P9, era hora de dar o verdadeiro retorno à escalada.

Lipe limpando a Oitava.
Detalhe nos estribos como proteçao de corda.

A décima enfiada era em face, só podia ser em buracos de Cliff e parafuso, ou em livre que não foi cogitado, pois a parede era realmente lisa e em pé. Iniciei nos buracos de Cliff que se mostravam verdadeiramente difíceis de serem achados, sempre no ultimo degrau do estribo e escondido por musgo ou teia. Eram 4 furos para um parafuso, se você cai no ultimo furo é bem improvável que um parafuso de ¼ agüente a queda, bem é bom nem pensar.
E finalmente P10, a primeira parada que não tínhamos estado antes. O dia inteiro ficou bem feio com muita nuvem e umidade, não chegou a chover, mas foi o suficiente p/ manter a décima primeira enfiada molhada e decidimos voltar ao platô.
Chegamos ao platô ainda bem cedo, eram 4 horas da tarde e tivemos tempo de pensar como seria o resto da escala e jogar bastante papo fora. Decidimos acordar cedo para garantir a escalada caso as próximas enfiadas estivessem molhadas.
Acordamos amanhecendo, comemos alguma coisa e iniciamos a “jumariada” até a P10 chegando lá percebemos que a décima primeira enfiada estava mais molhada que no dia anterior, mas não nos assustamos, pois não tinha chovido e é normal durante a noite a vegetação “chorar” e ficou pro Lipe resolver isso. Seco seria mole, logo a cima tinha um parafuso e depois um platô de mato, um lance de aderência mato e chegaríamos à florestinha no meio da parede. Mas molhada a coisa ficou um pouco mais complicada, miraculosamente o Felipe achou um furo antes do parafuso que estava no meio do musgo, dominou o parafuso e a vegetação, gastou um pouco de neurônio para fazer a “aderência mato” e chegou na Floretinha entre a P10 e a P11.

Foto do amanhecer no platô.

Ali terminamos o café da manha comendo uma geléia de mocotó e o Felipe tocou em uma aderência ainda úmida meio que no mato até a P11.
Momento Mocotó

Saindo da P11 encontrei duas possibilidades claro que eu tinha que escolher a errada. No rapel pude perceber que deveria ter ido para esquerda seguindo um sistema de fenda, mas acabei subindo pela direita perto de uma canaleta de mato e quando terminou essa canaleta tive que encarar uma aderência suja voltando para esquerda em direção ao grampo, porem o lance ficou uns dez metros desprotegidos e era só não cair. Cheguei no grampo, ufa, e era mais uns metros em A2 que usei peças ativas e pítons, fiz uns 3 movimentos em livre, pois não queria pedir o knif blade pela retinida cheguei em outra fenda larguei um Camalot numero um muito suspeito e mais uns movimentos para evitar de puxar equipo pela retinida e P12.
O fim da escalada já se mostrava e estávamos super animados, sabendo que as duas ultimas enfiadas seriam no meio de muito mato deixamos o excesso de equipo e o Haul Bag na P12.
O Felipe reclamou bastante do sol enquanto me dava segurança e ao sair da P12 não se sentiu bem, me passou a bola e logo tava guiando os lances em livre da décima terceira. Um quinto grau que logo entra no mato, um “M2”.

O sol castigando a galera na P12.
No primeiro P da decima terceira.

O Lipe chegou na P13 bem melhor após beber bastante água e sabendo que ele não se sentia bem me ofereci para guiar a ultima enfiada, mas o cara fez questão e na gana mandou a ultima enfiada.
UFA!!!!!!
Fim……… NÃO!!!!!
Tinhamos que achar e chegar à parada de rapel que fica bem a esquerda da P14 que é feita em Arvore. Uma e pouca da tarde estávamos no inicio do rapel e às quatro horas em ponto estávamos de volta ao platô, cogitamos em descer no mesmo dia, mas tínhamos água e comida o bastante para ficar mais uma noite curtindo aquele visual sem falar que desceríamos mais leves.

Felipe vindo para a Reniao de Rapel

Rapelando de volta ao platô bem feliz com o termino da via.

Chegando ao Buraco.

Ultima noite no que foi nossa casa por algumas dias.

Na manha seguinte, dia 9, iniciamos o rapel e logo estávamos na base. Descemos bem pesados, pois agora não teria um terceiro elemento para ajudar com toda a tralha e as dez horas da manha o Roberto (marido da minha mãe) fazia nosso resgate na Estrada do Joá.

Hora de voltar a loucura.

Acho que nunca fiz um relato tão grande de uma mesma via aqui no Adventurezone, mas eu acho que isso vai se tornar um documento importante para as futuras cordadas que queiram repetir a Presença de Laracna.


Mistérios de Laracna


1º O Nome da via é um dos mistérios, mas nome de via é uma coisa que não se explica. Quem sabe sabe.

2º Na manha do segundo dia o Dallorto falou que tinha visto uma inscrição na parede do buraco durante a noite e datava de 1950. Fiquei gastando o cara falando que o cigarro de palha que ele fumava tinha alguma coisa dentro e que ele tava viajando … ele jurou em ver a inscrição e quando voltamos ao buraco e com a noite pudemos ver a inscrição que dizia “C. E. ITACOLOMI  RIO 23.5.50” e só era legível durante a noite. Que clube é esse e como os caras chegaram lá em 50???? MISTÉRIO……


3º Quando dava segue ao Edney na sétima enfiada (saída do buraco) vi uma chapeleta no teto do buraco e o pior que aquilo era possível. No centro do teto da caverna tem uma fenda cheia de marimbondos que chega nessa chapeleta. De quem é essa via???? MISTÉRIO……….

4º Na linha do rapel de fuga tem uma via que os conquistadores da Laracna trocaram os grampo e diz a lenda que o Portela repetiu essa via. Mas quem conquistou essa via?? Não pode ter sido o pessoal do C. E Itacolomy, pois a via é bem técnica para decada de 50. MISTÉRIO!!!!


Agradecimentos.

Sozinho a gente não faz nada!!!

Valeu Rodrigo e Marcelinha por terem deixado água na P3.

Valeu a galera que emprestou uns equipos. Vini, Bagre, Barão, Batata e mais alguém…

Valeu pela galera que deu umas dicas…. Felipinho Assad, Edu RC.

Valeu aos sherpas de BigWall Adrian e Rodrigo.

E finalmente a galera que abriu essa via.

Alexandre Portela, Pita, Felipinho, Álvaro e Luis Afonso.
Arthur Estevez

Arquivado em: Deuter, Escalada, Montanhismo, Princeton Tec Tags: Escalada, Montanhismo

Leia Também!

Favorite e divulgue!

Deixe o seu comentário!

Comentar!

© 2012 Adventure Zone. Todos os direitos reservados. XHTML / CSS Válidos.
Desenvolvimento Mario Nery.