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Cicloviagem: Rio x Aparecida – 26 e 27/07 (2º dia)

Engraçado que durante a viagem, descobrimos que existem perguntas padronizadas e que foram feitas para todos nós antes da viagem. Vamos a elas e suas respostas politicamente corretas (C) e incorretas (I) respectivamente:

 

1 – Está indo pagar promessa?

(C) Não, estou indo viajar por prazer. Para experimentar novas sensações e assim preencher meu currículo da vida.

(I) Estou. Prometi que se eu saísse da prisão sem ter sido explorado sexualmente, iria a Aparecida agradecer. 

2 – Quanto tempo de viagem?

(C) O tempo é relativo, sabe-se que na física t = d/v, ou seja, quanto maior a velocidade, menor o tempo, até mesmo porque a distância é uma constate (relativa), mas é. Logo nosso plano é fazer em dois dias, no primeiro até Resende e no segundo de Resende a Aparecida. Quantas horas de pedal, aí só saberemos no dia.

(I) Se eu viajar na velocidade da luz (300000000m/s), chegarei lá em 0,0009s

 

3 – Como vocês voltarão?

(C) De ônibus

(I) Na cauda de um cometa

 

4 – De ônibus? E pode?

(C) Sim, pode. Colocaremos as bicicletas no bagageiro do ônibus

(I) Não, não pode. Mas obrigaremos o motorista a nos levar assim mesmo. E se ele não quiser, seguraremos na traseira do ônibus e voltaremos de carona

 

5 – Vocês são loucos!

(C) Sim, se querer viver e gozar dela é ser louco. Sou!

Senhor, tornai – me louco, irremediavelmente louco
Como os poetas sem palavras para os seus poemas,
As mulheres possuídas pelo amor do proibido,
Os suicidas repletos de coragem perante o medo de viver,
Os amantes que fazem do corpo a explosão da alma…”

(Frei Betto)

 

(I) Sim, somos! Fugimos do hospício agora e decidimos pedalar sem rumo!

That’s all! Vamos ao que interessa…

 

*****

 

Lembram-se que no último post terminei falando sobre o filme pornô? Então, descobri que pela manhã ainda passava o mesmo filme na televisão, ou seja, era um DVD que ficava repetindo a noite toda.

Após uma boa noite de sono, hora de retornar à estrada. Vinícius decidiu retornar para o Rio. Ficaríamos eu, Léo e Vini para completar o restante de Resende a Aparecida.

 

Nos despedimos do Vinícius e as 07:00 já estávamos novamente na estrada. Com apenas algumas besteiras forrando o estômago, decidimos que só parariamos uns 20km depois, para então tomarmos um café decente, ou pelo menos café, porque de decente, não tinha nada. Ainda bem que não tivemos nenhuma infecção intestinal!

Talvez esse trecho seja o mais cansativo da viagem, fisicamente e emocionalmente. Fisicamente porque começa uma sequência de subidas e descidas que se extendem até Aparecida. Emocionalmente porque você começar a pensar que logo após a subida, descerá um pouco e virá outra subida.

Eis que numa dessas descidas atingimos o limite entre o estado do Rio de Janeiro e São Paulo (iupi!). É incrível, mas ver aquela plaquinha indicando o início do estado deu uma reanimada no espírito, pois vimos que se conseguimos sair de um estado para o outro, conseguiriamos ir até aonde nossos sonhos permitissem. Aparecida estava mais próxima!

 

Cruzamos Queluz. Terminando a cidade. No trecho entre Queluz e Cruzeiro, só existem subidas, subidas intermináveis que terminavam em outras subidas. Em alguns instantes imaginei que Aparecida era a cidade mais alta do país, pois não parava de subir nunca.

Dentre todas as subidas, existem duas quase que consecutivas que dá vontade de chorar ao vê-las. Nesse momento relembro da Serra das Araras e digo que esta é moleza.

 

Essas duas subidonas são bem movimentadas, não possui uma sombra e o sol estava de fritar ovo em asfalto.

Em um instante, tem uma placa dizendo “Longo trecho em declive”. Pensei por alguns segundos numa felicidade eterna, que poderia descansar um pouco e ganhar alguns kilometros com essa descida. Ledo engano. De longo, não tinha nada. Se chegasse a 3km, era muito. E dou um doce para quem descobrir o que tinha após esse trecho de descida.

 

Sim, outra subida. Tão íngreme quanto a anterior. Em alguns momentos tive vontade de praguejar, mas como quem está na chuva é para se molhar… vai uma sequência de pedala um pouco, desce e empurra a bicicleta. Pedala mais um pouco e empurra novamente e vai assim até ultrapassar esse obstáculo.

Terminando a descida, pausa para descansar as pernas, pulmões, coração e comprar água. Tive a maldita idéia de comprar um doce de amendoim, desses de tendinha.

 

Não sei se foi o doce, o calor intenso ou uma perda líquida e sais mineiras abundante (xixi). Ou associação de tudo, só sei que faltando uns 20km, minha pressão cai bruscamente.

Paramos num posto de gasolina abandonado, deitei-me um pouco na sombra até normalizar o estado, peguei um salzinho do kit de 1ºs socorros (Valeu Alberto!!!) e em 10min fiquei renovado para prosseguir. Decidimos almoçar na próxima oportunidade.

Já novamente na estrada, vimos a placa: Graal – 7km. Pedala mais um pouco, Graal – 5km. Mais um pouco, Graal – 3km. Maldito lugar que nunca chega!!!

Ufa!!! Parada para o almoço!!! Faltando apenas 10km para chegar em Aparecida. Últimos ajustes nas bicicletas. Léo vinha recalibrando o pneu a cada posto, pois estava com um pequeno furo que permitia pedalar assim mesmo. Recalibramos todas as bikes, prendemos as tralhas e hora de pedalar até chegar na basílica. Ou quase!

Faltando apenas 1km, final da última subida do dia, pneu do Vini fura.

 

Consertamos rapidamente para chegarmos o mais breve possível na basílica e termos tempo para pegarmos o último ônibus para o Rio.

Câmara trocada, vamos com tudo que a cidade está  bem próxima!

Eis que em alguns minutos de pedalada, finalmente chegamos ao nosso destino. Aparecida!

O que ganhei com a viagem?

Momentos com amigos, momentos divertidos, outros não. Experiências novas. Novos lugares, novas sensações. Um coisa é certa, me tornei mais seguro, pois vi que tudo que quero, posso. Problemas existem, como os que encontramos, o segredo é saber como lidamos com eles.

Existem coisas que só se descobre vivendo.

 

Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”
(Amyr Klink – Mar Sem Fim)

Pedale, porque o mundo também gira!!!

 Gledson Silva

www.twitter.com/ciclorganico

www.ciclovencaourbana.blogspot.com

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