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BASE & CLIMB EUA 2009 (Escalada em Yosemite)

Antes de sair do Brasil, Yosemite era um grande mito! Eu achava que todas as escaladas seriam muito exigentes e que só era possível aproveitar o vale escalando vias de grau alto. Mas para minha surpresa, logo vi que o parque é um lugar democrático e mais do que habilidade, é necessário sabedoria para “se dar bem”! Antes dessa viagem eu tentei me preparar por alguns meses, escalando o maior número possível de vias com proteção móvel, longas e expostas. No entanto no último mês e meio antes da viagem, atordoado por uma pilha de obrigações do cotidiano, não consegui escalar quase nada! No entanto resolvi manter a lista de vias escolhidas.

Cume do Half Dome (exit point do antigo salto de BASE)

El Captain
Com a confiança ainda um pouco abalada, logo no primeiro dia no parque percebi que não escalaria tudo que havia previsto. Geralmente quando se está planejando uma viagem dessas, você quer aproveitar tudo ao máximo (afinal de contas nunca se sabe quando se terá outra oportunidade) e nessa empolgação às vezes pode acabar esquecendo um pouco os próprios limites (técnicos e físicos) e logo vê o reflexo disso na parede, mas a montanha é muito sábia e graciosamente trata de nos sinalizar o caminho certo.

No entanto, como existem escaladas de alta qualidade em todos os graus, pude aproveitar muito mais do que o esperado. Algumas dessas vias, inclusive, são pouco conhecidas e/ou repetidas, então com um enorme sorriso no rosto e foi nessas vias que fui entrando no “swing” do vale. Pois apesar de já ter alguma experiência em vias tradicionais, tive que reaprender muita coisa, desde leitura de via ao posicionamento de corpo, que é muito diferente, principalmente nas fendas frontais.

Dia 1 – Cheguei ao camp 4, o tradicional acampamento dos escaladores e único acampamento onde não há reservas, que funciona no esquema de first come, first served. Após montar a barraca, organizar toda a comida no armário “anti” urso e fazer um pequeno curso de como “me virar” no parque, com os escaladores mais experientes, fui escalar no Swan Slabs. Esse é um setor que fica muito próximo do camp 4 (10 min. – caminhada) e que tem vias curtas, todas bem próximas umas das outras. Foi uma ótima pedida para um fim de tarde. Chegando lá, decidi começar com calma, escolhi uma linha bem óbvia e com boas proteções, a Oak Tree Flake(5.6). Foi um bom começo, pois a via é feita com a técnica que mais estava acostumando (oposição) e caso fosse necessário eu poderia abortar pela árvore que dá o nome a via! Logo em seguida tentei a Unnamed Crack, um 5.9 “boulderistico” (como muitos escaladores a definiram). A via é bem tranquila e com boas proteções, mas a sua saída tem 3 movimentos em 5.9 bem fortes. Nessa via deu pra sentir um pouco mais como seria o “clima” da escalada no parque. Logo na primeira tentativa percebi que usar os pés como estava acostumado (com a ponta da sapatilha) não seria a melhor solução para o granito liso e vertical!

Via Grant´s Crack no SwanSlabs

Dia 2 – Feitas as devidas apresentações, no segundo dia comecei a tentativa das vias que haviam sido escolhidas antes de sair do Rio de Janeiro e a primeira delas foi à clássicaNutCracker (5.8). A via fica localizada em um setor conhecido como Manure Pile Buttress que tem em sua maioria, vias de 4 enfiadas, assim como a NutCracker. Em setores de vias tradicionais, muitas vezes é difícil identificar uma determinada base, pois às vezes existem linhas parecidas próximas umas das outras. Então, logo no segundo dia veio o primeiro ensinamento do vale. Entrei na linha que julgava ser a NutCracker e após escalar cerca de uns 40 metros, comecei a questionar se estava realmente no lugar certo. Para minha sorte, antes que eu investisse mais naquela linha, apareceu uma cordada que estava abandonando a NutCracker e me informou que eu estava via errada! O grupo quebrou um baita galho, pois permitiu que eu descesse pela sua corda, economizando muito tempo e talvez até algumas peças ou uma desescalada sem proteção! Quando cheguei na base conversamos um pouco e eles indicaram a base correta. Porém, a primeira enfiada da NutCracker pode ser feita por 3 linhas diferentes. Então após mais uma entrada na linha “errada”, desta vez em uma das variantes da via, um 5.6/5.8R de offwidth/chaminé e face. Depois dessa, finalmente localizei a linha mais frequentada da primeira enfiada. Mas, como já estava ficando tarde e a via só tem paradas em móvel e a única maneira de sair dela sem abandonar peças é completando-a, decidi fazer apenas um pedaço da primeira enfiada, até uma árvore de onde seria possível rapelar. Mesmo sem ter completado a via o dia foi de muita escalada e aprendizado, além disso, foi nesse dia que vi a linha de uma das vias mais bonitas do setor, uma via que eu não conhecia, a After Seven!

Urso passeando nas bases das vias do SwanSlabs

Dia 3 – Ainda me adaptando ao fuso e ainda cansado das semanas de muito trabalho no Rio e da grande sequência dos vôos, acordei bem devagar. Além disso eu não tinha ainda me ambientado com o parque, com as mãos das ruas e com a localização dos setores de escalada. Sendo assim, achei que seria uma boa idéia voltar ao Manure Pile Buttress e investigar aAfterSeven, o que acabou se provando ter sido uma ótima idéia, pois como já sabia chegar nesse setor e já conhecia a base da via, teria mais segurança e tranquilidade para tentar fazer meu primeiro “multi-pitch” em Yosemite (vias com mais de uma enfiada, como dizem os escaladores locais). Essa é uma via espetacular, começando em uma fenda frontal perfeita, a primeira enfiada termina com um crux de face na saída da primeira fenda. Depois disso a via fica bem variada e mais fácil com exceção da terceira enfiada que é um misto de diedro, chaminé e oposição bem estranho. A via termina em um grande platô que é na verdade o cume desse contraforte (buttress), que fica colado com o Manure Pile. Muito parecido com o que acontece no Pontão do Sol no Pico Maior de Salinas. Este contraforte fica muito perto também do contraforte do El Capitan e por toda via é possível ver o setor onde fica a via conhecida como the Nose. A descida da via é feita por trilha, o que permite que a via seja limpa, com todas as suas paradas em móvel!

Dia 4 – Depois do sucesso na After Seven era hora de conhecer outros setores. O Five Open Books é um setor com vias de 2 – 3 enfiadas, mas com possibilidade de aumentá-las, emendando-as, pois o setor é dividido em duas partes (inferior e superior). As vias do setor inferior terminam em um grande platô onde começam as vias do setor superior. O local tem esse nome, pelas características de suas fendas, que tendem a “abrir” do fundo para a borda (que são bem abauladas), parecendo como já diz o nome, um livro aberto. Atualmente o setor conta com mais de 5 vias, que vão de 5.6 ao 5.10a.

Nesse dia o plano era escalar a Munginella (5.6) para esquentar e emendar na Sanginella(5.8). A primeira parte ocorreu como planejado, foi possível até fazer a via em 2 enfiadas ao invés de 3. No entanto a segunda parte não foi tão fácil, em Yosemite é muito comum que duas vias do mesmo grau tenham uma complexidade bem diferente. Isso ocorre pois as vias podem variar muito em técnica (Ex: Fenda Frontal, Oposição, Entalamento, Chaminé e etc.) ou também pela época da conquista e pelo conquistador. A Sanginella era uma delas, um 5.8 com toda cara de 5.9, começando com uma estranha chaminé de meio corpo. Mas na escalda há males que vem para o bem, esse foi um dos dias mais quentes da viagem e a respiração na parede que já é complicada pela altitude do parque, ficou ainda mais complicada pela grande quantidade de fumaça e fuligem no ar. Nesse dia um dos incêndios controlados (comuns nessa época do ano)

Segunda enfiada da via Bishop´s Terrace (5.8)

Ao retornar ao camp 4 encontrei com um pessoal que havia conhecido no campsite, um trekker e fotografo amador do México e dois americanos que estavam de férias com suas famílias (por causa dos deslizamentos de rocha duas áreas de camping e um hotel foram fechados, como ocamp 4 é o único walk-in camp-ground e ainda não estava na alta temporada de escalada, muitas famílias optaram ficar lá para não perder a viagem). Quando cheguei, eles estavam tentando decidir se deveriam ou não fazer a trilha de 16 milhas (ida e volta) que leva ao cume doHalf Dome. Eles estavam na expectativa fazer a trilha à noite para fugir do calor e ver o sol nascer no cume na manhã seguinte. Esta trilha é um pedaço da famosa Jonh Muir Trail(http://www.adventurezone.com.br/post.php?id=92) que o Kiko Araujo postou aqui, no Adventure Zone em muito mais detalhes. Sem perceber, comecei a incentivá-los pois achava que aquele seria um programa imperdível, principalmente para os americanos, que partiriam com suas famílias no dia seguinte à tarde! Depois de muita pilha, Estevan, que já havia feito a trilha muitas vezes, concordou em acompanhar os dois americanos, mas com uma condição, que eu me juntasse ao grupo! Eu estava muito cansado, havia acordado cedo e escalado o dia inteiro. Mas depois de ter colocado tanta pilha, foi muito justo que eles colocassem pilha de volta. Então não teve jeito de negar o convite! Desarrumei a minha mochila da escalada, e a re-organizei com anorak, água, comida e roupas de frio, pois no vale, mesmo no verão, faz frio durante a madrugada, principalmente no cume de uma de suas principais montanhas. Fiz uma janta reforçada, pois saberia que passaria a noite toda caminhado. Tentei deitar, para descansar as pernas um pouco, mas a ansiedade não me permitiu ficar quieto.

Madrugada do dia 5 – 11:40 pm, era o que marcavam os relógios na placa da base da trilha (que informava a extensão da trilha e sobre os seus perigos). A trilha começa com uma escadaria de granito bem íngreme, beirando grandes quedas d’água, mas a noite só se ouvia o barulho e a brisa gelada da água. Nesse hora eu só podia imaginar o que seria a vista do dia seguinte! O restante da trilha é bem variado, passando por trechos de terra, pedra, areia, íngremes, planos, decidas e bosques, até chegar a mais uma escadaria de pedra, os “steps” que o Estevan tanto temia. Depois dessa seção de degraus de granito caminha-se sobre colo, para então chegar na base de um “costão” (as costas do “head-wall” do Half Dome), bem íngreme, mas com dois cabos de aço para ajudar à subida! Nesse trecho, há uma coisa muito curiosa, uma enorme pilha de luvas que ficam lá para as pessoas usarem nos cabos de aço!

Cume!!! – Chegar no cume do Half Dome foi algo incrível, ainda estava escuro, mas já dava pra ter uma idéia da magnitude da montanha e do vale abaixo. Cheguei as 5:40 da manhã, ainda fazia muito frio lá em cima! Depois de ver o dia amanhecer e curtir o cume, iniciamos a longa decida, só que agora com o privilégio da vista que durante a noite era só mistério. Chegamos novamente no camp 4 por volta de 13h, cansados e com fome, mas sem a possibilidade dormir nas barracas, que a essa hora do dia ficavam um forno. Restava apenas uma opção, nadar no lago gelado e dormir na grama (nada mal!!!).

Nascer do sol visto do cume do Half Dome

Dia 7 – Depois de descansar por um dia e meio, era hora de arrumar a mochila e conhecer mais um setor, o Church Bowl. Esta é uma ótima parede para aprimorar as técnicas de fenda, pois tem muitas vias (todas próximas umas das outras) com graus e técnicas bem variadas. Nesse dia tive a oportunidade de fazer a Church Bowl Lie-Back (oposição) um 5.8 curto, mas bem interessante. Logo depois entrei na Black is Brown (5.8), uma via um pouco mais forte que a primeira com pelo menos dois crux bem definidos, o primeiro deles com um movimento de muita força, bem “atlético”! A última via do dia foi sem dúvida uma das melhores de toda a viagem, a Bishop’s Terrace (5.8). A segunda enfiada dessa via começa em uma fenda que fica gradativamente mais vertical e vai gradativamente deixando de ser uma oposição e vai se tornando uma fenda frontal, literalmente em pé, o seu final é em um sistema de duas fendas paralelas, perfeitas! Eu poderia passar horas descrevendo essa via, mas esse post ficaria mais longo do que já está!

Separando o equipamento no Camp 4

Dia 8 – Foi o dia de tentar algo mais forte. Nesse dia foi à vez da Higher Cathedral Spire(Regular route) um 5.9, com jeito de 5.10, bem forte, como confirmaram mais tarde alguns escaladores locais. A via é uma linha natural que dá a volta ao redor de uma agulha que começa muito acima do vale. Para chegar a sua base, é necessário fazer uma trilha de 1 – 2 horas bem forte, ganhando muita elevação, muito rápido, em um terreno de cascalho e mares de boulders (grandes trechos com blocos de deslizamentos de rocha amontoados). A via começa com uma enfiada “tranquila” mas com proteções um pouco mais difíceis. A segunda enfiada começa com a entrada do primeiro crux da via, um antigo lance em artificial mas que agora é feito em livre (o primeiro suposto 5.9). Esse crux começa com uma seção de lances fortes com regletes em oposição, seguindo para uma travessia em abaulados/aderência. Depois disso a enfiada termina com uma fenda no fundo de uma chaminé bem abaulada com alguns lances de aderência. Na P2 tive que tomar uma das decisões mais difíceis da viagem, mas muito comum no montanhismo, subir ou descer? Faltavam apenas duas enfiadas curtas, de onde era possível ver o pequeno cume da agulha e o visual do vale atrás de mim. No entanto já estava no meio da tarde e a próxima enfiada tinha o segundo crux da via, que era conhecido como o verdadeiro crux da via. Eu sabia que precisaria de algumas horas para trabalhar este crux e que o rapel da via não era simples pois a via gira entorno da agulha. Pensando nesse rapel com uma headlamp velha e na descida da trilha bem íngreme, decidi abortar! Era o meu penúltimo dia no vale, mas eu ainda tinha uma viagem inteira pela frente! Foi difícil, mas hoje acho que foi a melhor decisão.

Higher Cathedral Spire

Dia 9 – Meu último dia no vale foi um dia bem atarefado. Tinha que arrumar todas as minhas coisas, deixar o meu campsite como eu o havia encontrado (sem deixar nada para os ursos), rever toda a logística para Twin Falls, dado que a estrada que pegaria para sair do parque estava fechada por causa de deslizamentos de rocha e descansar da empreitada do dia anterior para enfrentar 15 horas no volante no dia seguinte. Então optei por voltar no SwanSlabs para fazer vias curtas e rápidas, porém, desta vez com toda a bagagem adquirida em 8 dias de escalada no vale. Além disso como iria passar os próximos dias saltando (descasando a pele dos dedos das mãos e dos pés) resolvi tentar algumas vias um pouco mais difíceis. A primeira delas foi a Grant’s Crack (5.9) em fenda de dedo com os pés lisos no vertical, uma via muito legal onde é necessário trocar o equilíbrio de um lado para o outro da fenda, o tempo todo! Em seguida entrei em duas vias que geralmente são feitas em Top Rope, por causa da qualidade das poucas proteções possíveis. A primeira delas foi a Unnamed Thin Crack (5.10a) e em seguida naUnnamed Seam (5.10c). A primeira é uma fenda de entalamento de dedos e a segunda é uma crista um pouco abaulada com algumas fendas de dedo, mas que em sua maior parte acaba sendo uma escalada de face!

Nesse clima de grandes conquistas e aprendizados, comecei a me preparar para me despedir deYosemite na manhã seguinte. Naquela noite fiquei impressionado, como em poucos dias a cultura do vale, pode te influenciar e como abrir mão da rotina que se cria no camp 4 é difícil. Acho que a minha despedida só não foi pior, porque ainda havia muita coisa boa por vir!

Informações Extras:
– Site com croquis e informações sobre vias em Yosemite:

– Informações sobre as estradas e os campings (Site Oficial do Parque Nacional de Yosemite):

– Post anterior da BASE & CLIMB EUA 2009:

– Site com informações gerais sobre como organizar uma viagem para Yosemite:

Por Gustavo Britto
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