Após escalar o Tronador e no Frey era a vez de Arenales.

Campanille Alto no fundo
Salve Galera ….
Enfim, em casa.
Faz cinco dias que estou na área, mas só hoje tive tempo de sentar para escrever um pouco do que foi a escalada de Arenales.
Depois de mais de dois meses rodando pela Argentina eu chego a minha casa. Quem acompanha o blog sabe que sai do Brasil em dezembro com minha avó para fazer um passeio turístico por Bariloche e lá encontrei com a Adriana e o Junior e acabamos escalando o cume argentino do Tronador no primeiro dia do ano de 2009. Depois da escalada de neve, fiquei mais um mês escalando em rocha no Frey, já com idéia de encontrar a Mariana Candeia em Mendoza, para ir a Arenales.
Esse encontro com a Mari aconteceu dia 07/02 na rodoviária de Mendoza bem cedinho e para implicar um pouco com a menina, marquei de encontrá-la no Guarda Volumes (para bom entendedor meia palavra basta:).
Do terminal partimos para o hostel Empedrado, que fica pertinho do Mercado Central e do Supermercado VEA. Já de cara estávamos na função de montar a logística de Transporte e Rango, jogamos as coisas no albergue e partimos para o Mercado Central. Lá encontramos bons alimentos a granel que reforçou nosso café da manha, mas ainda faltava o grosso dos suprimentos e partimos para o Super.

Role em Mendoza e por essa porta eu nao poderia pasar.
Já com a metade do dia corrido, tínhamos a outra metade para procurar um transporte até Arenales, mas com o molejo paraibano e a malandragem carioca isso foi mole. Arrumamos de tudo, desde uma Land Rover que nos levaria de Mendoza a Arenales por 600 Pesos, até a soma de dois ônibus “cata corno” mais uma Vam que nos sairia num total aproximado de 50 Pesos. Claro que fomos com a ultima opção e isso foi ótimo pois conhecemos uma figura única, um cara chamado Yagar e quem já esteve em Arenales conhece essa pessoa. Mas no final o transporte ficou assim: Tomamos um ônibus na rodoviária de Mendoza até Tuyunan, de lá tomamos outro até Manzano onde encontramos o Yagar que nos levou até Arenales.
Particularmente eu não gostei dessa logística. Depois conversando com Yagar descobri que tem um ônibus que sai direto de Buenos Aires até Tuyunan. Acho melhor perder um dia em Tuyunan que em Mendoza, a cidade me pareceu bem mais agradável e segura.
Nosso primeiro dia em Arenales foi dedicado a “chegar”. É um tal de sobe mochila, desce mochila, alem das mochilas tem as caixas de comida e a energia vai indo embora. Sem falar que o carro do Yagar não deixa onde acampamos, só para 4×4, ficávamos a uns 15/20 minutos caminhando do refugio e claro que são algumas viagens para levar todos os viveres para um mês (lembrando que as garrafas de vinho fazem parte dos viveres:). Acampamos em baixo de uma via esportiva, e isso foi perfeito, pois pegamos umas duas tempestades que eu acho que minha surrada barraca não iria agüentar.

Dodega
E finalmente no dia 9 voltava a por a mão na Rocha. Para Iniciar, escalamos na parte baixa, na Parede de la Mitria. Procurava a via Sueño Vaginales , mas o guia me sabotou e acabei na Elida, já que tava ali toquei para cima e Encontrei a via Placa de La Mitria; um 6b bem suspeito e com cara de 6a (todos os graus citados estão na Graduação Francesa). Não muito satisfeitos fomos procurar a via que realmente queríamos fazer e finalmente a encontramos, Sueños Vaginales com Mama te Quiero, um 6a+ em desplume que emendava com um 6a de placa. Terminando a via o tempo fechava e algumas gotas caiam e então decidimos voltar ao refugio e fazer a janta.

Sueños Vaginales 6a (Mitria)

Culinaria nota 10
No dia seguinte a idéia era escalar a via Patrícia e Los Diedros mas ainda não estávamos acostumados com o estilo de escalada e achar a linha da via era um martírio que nos tomava muito tempo , perdíamos mais tempo buscando a linha que escalando e acabamos escalando somente a Patrícia. Uma linha que tem sua primeira enfiada linda com um 6a+ em fenda frontal de dedo e mão, mas logo cai numa “trepação” de bloco bem chato. Naquele dia já percebia que o grau do Frey é bem mais puxado, mas seguia o esquema de graduação de fendas serem mais forte que de placa.

Primeirra enfiada da Patricia
No dia 11 a idéia novamente era escalar duas linhas em um dia e mais uma vez não demos conta devido à dificuldade de se orientar. Queríamos escalar a Mujeres e Tequila que é a linha de rapel da Agulha Nuez e depois fazer a Morfin. Mas a neura de seguir uma linha certa era tão grande que ficamos horas num mega platô buscando duas chapas que estavam no guia e que ate hoje não sei se elas realmente existem. Daí em diante decidimos não seguir mais o guia e escalar por onde fosse mais bonito.
O dia seguinte foi o ultimo dia na parte baixa e estaríamos voltando a escalar em La Mitria. Foi um dia bem produtivo, escalamos a Amice Mei, Rosso de Serra que devemos ficar esperto para não entrar numa via nova e que não esta no guia, Vira Coxa um 7a Frances que me saiu a vista e a Danza com Lobos que acho ter dançado com as cabras, pois não sei se segui as chapas corretas.

Rosso de Sera
Tiramos um dia de descanso para subir ao Grupo Campanille onde estão os clássicos do lugar.

Dando um Trato...

Mari guiando a 1ª enfiada da Armonica

Conquistando a Vr. Desarmonica

Mari metendo Bronca na Vr. "Cade o Pé???" "É na fenda"......

Mari Guiando facil o segundo 6a da Armonica.

Linha da Variante Desarmonica
Ainda muito empolgados com a escalada do Campanille, no dia seguinte estávamos na Charles Webis buscando a base da Panqueques com Dulce de Leche. E a historia se repetia, não sabia onde estávamos e erramos a primeira enfiada que me colocou em uma roubada, em uma fenda rasa onde não se podia proteger. Fica a dica, não seguir a laca para esquerda, a via é para a direita! Mas depois disso é só alegria, seqüência de fendas perfeitas. 6b SUBLIME.

Mari limpando o 6b da Panqueques

Terceira enfiada

Última enfiada
E a empolgação sobre a parte alta de Arenales continuava e decidimos botar os dedos para jogo na via Mundo Interior na Agulha Espina, um 6c em fenda de dedos que prometia, mas o norte da Mari mudava de lugar (essa é outra historia, vocês sabiam que o norte muda de lugar??? Pois é o da Mari muda.) e desorientados acabamos subindo o colo errado chegando em outra face.
Desistimos da via e acabamos no Campanile com a idéia de escalar a Cuyanita. E para variar nos perdemos depois do P1 e no final das contas escalamos o que chamamos de El culo de la Cuyanita. Isso foi ótimo, pois após de nos perdemos encontramos um diedro PERFEITO, uma fenda que iniciava fino e terminava largo. Lindo! Um 6a++ lindo.

El culo de la Cuyanita

LINDO não??
Após o norte da Mari mudar de lugar algumas vezes percebemos que o dia seguinte era “Day off” e assim foi, mas não parávamos de Pensar na Mundo Interior.
Dia 17 caminhávamos com gana de encontrar logo a base da via e meter bronca no 6c, Mari guiou a primeira enfiada emendando na segunda e rapidamente chegamos na base do 6c e tempo já prometia fechar. Me arrumei e dei inicio à escala, coisa mais linda, umas fendas rasas em uma escalada de equilíbrio e perto do final a chuva armava. Mari guiou mais uma enfiada que nos levou bem perto do Rapel e então décidimos abandonar a ultima enfiada que era de trepa bloco. Rapel bem cabulo em dois pítons suspeitos, mas era o que tínhamos.

Fendas :
Chegando à base, a chuva fina dava inicio e ficamos ali com gostinho de quero mais e com esperança daquela bufa negra passar e caminhamos a base da Universo Mental, que fica na A. Torrecillas. Ali nos equipamos, nos encordamos e ficamos negociando com uma chuva bem fininha que me desanimava, mas a Mari sempre muito empolgada botou o gás e encarou o 6a em baixo de uma fina garoa. O início da via é em uma pedra bem podre e esfarelenta, a segunda enfiada em blocos soltos e suspeitos, mas a terceira… ah, a terceira…. é uma fenda continua de uns 50 metros que vale MUITO a pena. De cara vc já vara um teto de quinto grau, sim um quinto grau, toca em fenda de mão e punho, a fenda vai alargando, ate que você tem que utilizar a técnica de alavanca de braço.


Perdido na Carlos Daniel

Surpresa!!!

Aéreo

Cata o agarrao Mari...

Fazendo Graça cerca do Cume

Admirando o Inadimiravel
O dia seguinte foi horrível e por sorte calhou de coincidir com o dia que tiramos para descansar na idéia de encarar o Cohete, mas a sorte durava pouco, pois o dia conseguinte continuava chovendo e a Mari estava indo embora.
Perdia minha parceira de escalada e fiquei sozinho em Arenales. Essa foi uma decisão dura, pois não sabia se voltava com a Mari ou se continuava em Arenales. Continuei e logo juntei na galera de Curitiba. No mesmo dia estávamos subindo ao Campanille e entrei na via George de la Selva com o Erminio. E mais uma vez escalamos qualquer coisa, talvez a George Perdido e la Selva.
Após dois dias off estava sem parceiro e fui escalar em La Mitria com a filha do Yagar, a Mora. A mina tem 15 anos e ta engolindo os sextos, a garota promete. Como não conhecia a escalada da menina, decidi entrar em alguma coisa bem tranqüila e escolhemos a El filo de Cabalito. Rapidamente estávamos no chão e os dois com vontade de escalar mais e propus em entrar na via nova de chapas que fica ao lado da Rosso de Sera. Com uma cara meio de inocente e assustada, mas cheia de vontade, dizia ela que era um 6c e que nunca tinha feito….. E lá fomos e lá confirmamos o 6c.
No dia 25 fui convidado por Guille (não estou certo sobre a grafia), um Frances muito gente boa (ate então não sabia que os franceses tinham essa capacidade) a escalar a Cinemascope. Que via dura, tinha de tudo fenda de dedo, Ringlocker, fenda de mão, punho, offwidth, ali tu tinha que entalar ate a alma. A via me torturava, pois alem da via ser muito dura eu tentava fazer os lances de A1 em livre e isso acabou com minha energia. Sei que no dia seguinte sentia dores em lugares inimagináveis como na virilha.
Sei que fenda final, um 6b de dedo eu já sentia câimbra nos braço e mal sustentava meu peso, mas mesmo assim tomei a ponta e Cume.

"Arthuro.... es A1!!!!"

Francês MUITO doidão

Última enfiada da Cinemascope.
O que mais me lembro dessa via é o Guille falando: “Arthuro los artificiales son artificiales!!! Num espanhol bem tosco.
Dia seguinte não sentia meu corpo, ainda bem que a alma ali ainda existia e tive a sapiência de não acompanhar a galera no Cohete. Ainda tive a sorte de logo o tempo fechar até nevar, mas foi uma pena para a galera de Curitiba, pois ficaram uns dez metros do cume. Daí foi mais uns dois dias feios e sem escalada.
Chegou o dia de descer, e combinamos com Yagar as 4:30 na ponte. Antes daria para escalar na Mitria, no Setor Garganta Del Puma a idéia era “passar o rodo”, pois as vias são todas curtas, mas Erminio acordou bem mal nesse dia e só escalamos duas vias, a Alquimia um 6a de chapas e Los deditos, um 6b de dedo a mão numa rocha meio podre mas bem legal e bonito.
Daí…. mais 4 dias de viagem de ônibus até chegar ao Rio. Mas essa já é outra aventura.

Uma pena eu não ter escalado o Cohete, mas não posso reclamar, pois escalei muitas coisas legais e assim me restou a vontade de voltar.
Gostaria de agradecer a Mari por me fazer companhia nas escalada de Arenales e aceitar meu convite, não tínhamos escalado juntos e isso foi uma demonstração de confiança. Aos Chilenos por deixar o refugio mais alegre. Aos Curitibas por me adotarem quando a Mari foi embora. Ao Yagar por ser uma pessoa Iluminada e dar uma baita força a todos que estão em Arenales. E a Proativa por acreditar na minha escalada e me equipar com o que ha de melhor no mercado.






