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A primeira ascensão da Torre Egger

A Torre Egger é uma das montanhas do sul da Patagônia, no Gelo Continental da América do Sul. Ela tem 2.850 metros de altitude e se localiza em uma região que é disputada entre Argentina e Chile, a oeste de Cerro Chaltén (também conhecido como Fitz Roy). Seu nome é uma homenagem a Toni Egger*, um alpinista austríaco, que faleceu em 1959, durante a escalada do Cerro Torre na expedição de Cesare Maestri.

Torre Egger, Punta Herron, Cerro Sthandhardt e Perfil de Indio, vertente Leste. Foto: M. Dura

 

A Torre Egger é a agulha central das três do grupo Torre, ficando entre o Cerro Torre, o mais elevado e o Cerro Stanhardt. Esta esbelta e vertical agulha possui um cogumelo de gelo no cume diferente de seus cumes vizinhos. Tem cinco rotas, e todas são difíceis, a que não é difícil escalar, acaba sendo porque está exposta à queda de rochas e gelo. Poucos foram os escaladores que tentaram e conseguiram realizar a ascensão até o cume.

Cerro Torre (o mais alto cume, à direita) e a Torre Egger (no meio) visto de Oeste. Foto de Mark Westman.

 

A técnica face Leste da Torre Egger, que desde sua primera ascensão em 22 de fevereiro de 1976, pelos escaladores norte-americanos John Bragg, Jim Donini e Jay Wilson, através da aresta Sudeste, conta com quatro rotas: a Italiana de 1980 (De Donà e Giongo), Psycho Vertical (Jeglic, Karo e Knez, 1986), Titanic 87 (Giarolli e Orlandi, 1987) e Badlands (Anker, Gerberding e Smith, 1994).

No início de 2002, o habitual companheiro de Dean Potter em seus recordes de velocidade na The Nose no El Capitán, Tim O’Neill, junto ao seu parceiro Nathan Martin, abriu uma nova variante na face Leste da Torre Egger.

Uma das cunhas de madeira deixadas por Maestri e Egger, e encontrados abaixo do campo de gelo. Foto de Jim Donini

 

A nova variante de O’Neill e Martin entra pela via Italiana da face Leste (dez cordadas), traçando oito novas enfiadas para a Titanic 87, através dos quais chegaram ao cume. No total, são 32 cordadas com dificuldades de 6b+ 5.11 A2 WI 6, 950m (a sigla WI é a graduação para escalada em gelo de fusão), que a dupla americana concluiu em dois dias e meio e em estilo alpino, a segunda da mesma maneira na Torre Egger, depois de De Doná e Giongo. A escalada precisou ser abortada em várias ocasiões devido ao mal tempo, uma característica própria da Patagônia.

 
Logo abaixo da travessia para o Colo da Conquista. Foto de Jim Donini

 

Em janeiro de 2008, Rolando Garibotti e Colin Haley fizeram a primeira travessia completa de todo o maciço, escalando o Cerro Standhardt, Punta Herron, Torre Egger e Cerro Torre juntos. Eles graduaram sua rota como VI 5.11 A1 WI 6, com 2.200 m de ganho vertical total. Esta tinha sido “uma das mais emblemáticas do mundo, das rotas não escaladas”, tendo sua primeira tentativa realizada por Ermanno Salvaterra.

 
Uma vista da Torre Egger (John Bragg em primeiro plano), no Colo da Conquista. Foto de Jim Donini

 

Primeiras Tentativas

A primeira tentativa de escalada da Torre Egger aconteceu somente em janeiro de 1974 por um grupo composto pelos britânicos Leo Dickinson, Eric Jones, Martín Boysen, Paul Tut Braitwaite, Keith Lewis, Mick Coffey e os norte-americanos Dan Reid e Rick Sylvester. A linha escolhida foi a que estava do lado direito da face Leste, que apresenta uma depressão profunda. É perigosa e exposta a quedas de blocos, tanto que um deles golpeou Paul Braithwaite, e acabou fraturando um braço e consequentemente a equipe abandonou a tentativa. Esta expedição chegou até 300 metros abaixo do colo entre as torres Egger e Herron.

 
John Bragg atravessando uma greta na aproximação para a Torre Egger em 1975. Esta foto mostra o trecho vertical íngreme até o campo de gelo triangular, onde acharam as cordas. Foto de Jim Donini

 

Em 1975 dois grupos estavam tentando escalar a Torre Egger, uma americana e uma neozelandesa. O grupo americano tentava a parede sul e era composta por Jay Wilson, Jhon Bragg e Jim Donini. A neozelandesa, composta por nove alpinistas, queria experimentar a mesma linha que os britânicos tentaram em 1974, mas abandonaram quando Phillip Herron, de 19 anos, acabou perdendo a vida depois de cair 60 metros dentro de uma greta. Depois seu nome foi utilizado para batizar a agulha que está ligada à Torre Egger.

Geralmente as primeiras ascensões na Patagônia, em sua maioria, acabaram sendo realizadas por grupos numerosos, várias vezes superior a dez escaladores. Bragg, Wilson e Donini eram apenas três e não não tiveram ajuda para carregar centenas de quilos de equipamentos, incluindo os 1.100 metros de cordas e suprimentos, até a base da parede. Bragg e Donini, que estiveram na região na temporada anterior e haviam falhado em sua tentativa de escalar o Cerro Standhardt, estavam determinados a conquistar a montanha patagônica.

Donini afirma que era melhor isso, tendo a chance de chegar ao topo, e não fazer parte de uma expedição gigante onde os que conseguem a senha para subir ao topo são poucos. Os três americanos foram apoiados pelo American Alpine Club e um relato de sua escalada com as fotos, apareceu mais tarde na revista National Geographic de dezembro de 1976.

Logo que chegaram ao Parque Nacional Los Glaciares em 18 de dezembro de 1975, os três montanhistas imediatamente aproveitaram alguns dias de bom tempo para transportar os suprimentos até o vale do Torre, aonde é agora o local de Acampamento Agostini.

Com um acampamento base estabelecido na floresta, eles continuaram até o Glaciar Torre e levaram alimentos e equipamentos para uma caverna de neve ao pé da Torre Egger, ficando assim com comida suficiente para três meses.

No que era para ser uma ocorrência regular, o mal tempo chegou e persistiu, forçou-os a voltar ao acampamento base. Quando eles conseguiram retornar, quase duas semanas depois, sua caverna havia sido enterrada por cerca de 10 metros de neve. Levou mais dois dias para que conseguissem desenterrar todos os seus equipamentos.

Seu plano era escalar os 700 metros da via Maestri-Egger até o Colo da Conquista, e de lá subir os 400 metros restantes da face sul da Torre Egger, tornando-se os primeiros a percorrer uma parte da rota Maestri-Egger.

Nos meses de dezembro e janeiro aproveitaram os curtos intervalos de tempo bom para fixar 180 metros de cordas nos 1.200 metros de rota. Em 23 e 24 de janeiro chegaram ao campo de neve triangular, aonde metros antes encontraram cunhas de madeira e grampos, e logo depois uma corda fixa, e ao chegar a um platô, rolos de corda descoloridos pelo sol e uma mochila com cunhas de madeira, e estes eram os únicos rastros de Maestri e Egger que encontraram pelo caminho.

Uma semana depois, escalaram 300 metros acima em dois dias de tempo bom. Este trecho da rota para cima, é muito exposto a quedas de blocos de gelo e um deles teria varrido Wilson da parede se não tivesse batido na parede a poucos metros acima, dissolvendo-se em milhares de pedaços.

Os americanos continuaram escalando para cima e para a direita, diagonalmente, seguindo a linha Maestri-Egger e seguindo para o Colo da Conquista, o corte profundo entre o Cerro Torre e a Torre Egger. Depois de dois dias de escalada em livre, misto e artificial, eles finalmente chegaram ao Colo. Os três escaladores passaram uma noite ruim no Colo, observando os sinais da aproximação de uma tempestade, redemoinho de nuvens e ventos turbulentos. Desceram pelas cordas fixas e voltaram ao acampamento base para se recuperar e aguardar uma trégua do tempo.

Duas semanas depois, em 16 de fevereiro, regressaram à montanha levando consigo uma estrutura de alumínio e nylon, pesando 15 quilos e chamada ‘Whillans Box’, especialmente concebida para resistir ao tempo, era uma barraca projetada pelo alpinista inglês Don Whillans para suportar ventos fortes e usada pela primeira vez durante a primeira subida da torre central das Torres del Paine. Ela foi instalada logo abaixo do Colo, onde passaram os seis dias seguintes.

A parede diretamente acima do Colo era de inclinação negativa e recoberta com gelo podre (rotten ice). Essa rota era intransponível e a única opção foi seguir para a direita, percorrendo a distância de duas cordas, por uma parede íngreme toda coberta de gelo, para ter acesso ao cume.

Donini caiu seis metros na rocha escorregadia, mas consegui terminar a passagem e fazer uma ancoragem. Bragg liderou a outra travessia e seguiu uma seção de dezoito metros em negativo de rocha. Foi a vez de Donini liderar novamente, ele descreveu o que aconteceu. “Eu subi a um ponto onde eu não podia mais seguir. Jay desceu-me e comecei a tentar um pêndulo… acabei pendulando suficientemente longe para a direita, conseguindo segurar com a mão numa fenda, fixando um pino e clipando.”

Com Donini na liderança, Bragg e Wilson se ancoraram e esperaram pacientemente que ele passasse três horas e meia, superando o trecho de dezoito metros. Um laço jogado sobre um pedestal de pedra e a colocação de um grampo salvou o dia.

Acima do Colo de Conquista, as exigências técnicas facilitaram um pouco, mas o clima quente deixou o caminho perigoso. As quedas de gelo eram constantes por toda a parte, enquanto que a água caía nas fendas deixando a rocha úmida. O início de uma tempestade trouxe neblina e granizo, e os três montanhistas ansiosos continuaram fixando cordas no difícil terreno misto até chegarem a 120 metros do topo. Em 22 de fevereiro jumarearam pelas cordas congeladas e espessas de neve.

Seguiram a partir daí por um terreno virgem, escalando trechos verticais de escalada em gelo e rocha. Em meio à tempestade, chegaram sobre o intocado cume, onde deixaram um mosquetão que no ano anterior tinham encontrado junto ao corpo de Toni Egger e começaram a descer. Em toda a sua escalada usaram apenas quatro grampos. Donini disse: “Tinhamos alguns grampos conosco mas realmente relutamos para usar…”. A via completa tem 1.100 metros, dos quais 400 metros foram conquistados por eles, e sua dificuldade é de 5.9, A4, WI 5.

 
Torre Egger e Punta Herrón. Foto: Livro Patagonia de Buscaini e Metzeltin

 

As Rotas

1976 – Americana (Face Leste, Aresta Sudeste) (1.100m, 5.9, A4, WI 5) Jay Wilson, Jhon Bragg e Jim Donini (Estados Unidos), 22 de fevereiro de 1976.

1980 – Tempeste (Face Leste) (1.000m, 6a, A2, 85º/90º) Giuliano Giongo, Bruno De Doná e De Nardinis (Itália), 15 de março de 1980.

1986 – Psycho Vertical (Face Sudeste) (UIAA ED+ VII+ A3 90º) Janez Jeglic, Silvo Karo, Franc Knez (Eslovênia), 7 de dezembro de 1986.

1987 – Titanic (Pilar Leste) (UIAA VI+ A2), Maurizio Giarolli and Elio Orlandi (Itália), 2 a 5 de novembro de 1987.

1994 – Badlands (Face Leste) (1.000m, YDS VI 5.10 A3 WI 4+) Conrad Anker, Jay Smith e Steve Gerberding (Estados Unidos), 12 de dezembro de 1994.

2002 – O’Neill/Martin (Variante Face Leste) (950m, 6b+ 5.11 A2 WI 6) Tim O’Neill, Nathan Martin (Estados Unidos), 22-24 de janeiro de 2002.

 

*Toni Egger

Em 1959, Cesare Maestri, foi até a região do Fitz Roy para fazer outra tentativa no Cerro Torre. Ele afirma que, após dez dias de tempestades contínuas, ele e o companheiro italiano Cesarino Fava e o escalador de gelo austríaco Toni Egger, atravessaram o Glaciar Torre e escalaram 700 metros na face Leste do Cerro Torre, até chegar a um enorme colo, que denominou como Colo da Conquista. Fava voltou para o acampamento e deixou Maestri e Egger para continuar no dia seguinte, até a íngreme aresta Norte.

O que se sabe é que seis dias depois ele disse que desceu do colo, Fava encontrou Maestri sozinho e delirando, semi-enterrado na neve, aos pés da face Leste. Balbuciando, Maestri falou de uma grande avalanche que tinha varrido da face, matando Toni Egger, enquanto desciam da montanha. Maestri afirmava que estavam retornando triunfantes, tendo sido as primeiras pessoas a ficar em pé no cume do Cerro Torre, algo contestado até hoje por diversos montanhistas.

Em 1975, o alpinista britânico Mick Coffey, em uma tentativa de escalada ao Cerro Standhardt com o alpinista americano Jim Donini e os colegas britânicos Ben Campbell-Kelly e Brian Wyvill, encontraram os macabros restos de Toni Egger fora do glaciar. O corpo tinha viajado por mais de 2 kilometros desde o seu desaparecimento, quinze anos antes na face Leste do Cerro Torre.

  

Fontes de Pesquisa

Livro Mountaineering in Patagonia, de Alan Kearney

Livro Patagonia, de Buscaini e Metzeltin

American Alpine Journal

Climbinginpatagonia

UK Mountain Info

Colinhenderson

Climbing

Tecpetrol

Alpinist.com

Desnivel

Wikipedia

 

Por Beto Joly, especial para Adventure Zone e iMontanha.com

Arquivado em: Escalada, Montanhismo

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